Fotografias & Histórias de Montanha

terça-feira, 16 de março de 2021

O caminho de que nos desviamos


Bosque centenário (Vale do Rio Marão), Serra do Marão

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.8
1/60seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Os trilhos de montanha não têm necessariamente que ser duros e desconfortáveis. Por vezes, alguns trechos do caminho surpreendem-nos com a sua incrível leveza e singularidade. Este antigo carreteiro de montanha trespassa um raro e valiosíssimo bosque centenário. Um pequeno ponto verde que escapou milagrosamente ao devastador incêndio florestal que reduziu a cinzas uma das mais pujantes e emblemáticas florestas do país. O inferno de chamas que se abateu sobre as montanhas da Serra do Marão, no longínquo e nefasto ano de 1985, consumiu mais de 3000 hectares de floresta, desalojando famílias inteiras e destruindo campos agrícolas e pastagens para o gado. A catástrofe, com contornos nunca antes vistos em Portugal, marcou um ponto de viragem no que diz respeito à ausência de políticas florestais concretas. E muito se falou desde então sobre um novo e urgente ordenamento do território, e da floresta em particular.
Várias décadas volvidas, as encostas maronesas vão lentamente recuperando do trágico incêndio, embora seja praticamente impossível voltar a vê-las revestidas da outrora densa e carismática floresta de pinho. Pelo contrário, os montes do Marão (tal como muitos outros por esse país fora) têm vindo a ser cada vez mais mal tratados e, de certo modo, desprezados. Trata-se da consequência de um fenómeno imperceptível para alguns, mas profundamente enraizado no decorrer da evolução das nossas sociedades - um cada vez maior distanciamento das pessoas em relação à natureza, à terra, aos rios, às rochas, e, claro, às árvores e à floresta.
O registo fotográfico que acompanha o texto, pretende, também ele, estabelecer uma certa analogia entre o passado e o presente. Este velho carreteiro de montanha, na realidade, aponta-nos um outro caminho: é através dele que podemos sentir e ver o caminho de que nos desviamos.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)