Miradouro da Senhora das Treburas, Barroso
Detalhes do registo fotográfico:
F/8
1/500 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8
Ainda de madrugada, o despertador toca. Saio da cama, visto um casaco, abro a porta e saio para dar uma pequena volta. A aldeia de Penedones encontra-se coberta por um admirável manto branco. Tinha caído um forte nevão durante a noite. Sabia de antemão que as previsões meteorológicas apontavam para a possibilidade de queda de neve, mas não esperava que a cota baixasse de forma considerável e a neve caísse com esta intensidade. Entro no pequeno alojamento de turismo rural e preparo meticulosamente a mochila. O nevão poderia por em causa o plano que tinha delineado para este segundo e último dia da minha travessia em solitário pela região do Barroso. Apesar de não ser a primeira vez que caminharia sobre neve, teria que ter o máximo de cuidado para não correr riscos desnecessários.
Enquanto percorro as ruelas da fantasmagórica aldeia, fico com a ideia de que sou o único que por aqui anda, embora algumas pessoas tenham já se levantado, a julgar pelo fumo que lentamente vejo sair das chaminés de algumas casas. Ainda antes de sair do aldeamento, devolvo o olhar para o modesto alojamento que tão bem me acolheu no dia anterior e sinto pela última vez a quentura e o aconchego das suas paredes, em pleno contraste com o ar gélido e o vento tenebroso do exterior. Deixo as lamúrias para trás e entro na montanha propriamente dita. Apesar da acumulação de neve ser cada vez maior, a progressão era feita de uma forma relativamente rápida e segura, sendo cada vez mais audível o crac... crac... dos meus passos na neve gelada. Quando estava a uns escassos metros de alcançar o colo de montanha do Boqueiro do Avelar, o vento começa a soprar com ainda mais intensidade, arrastando consigo alguma neve. O incómodo era tanto que decido abrigar-me provisoriamente no interior de um pinhal, onde, e vá-se lá saber o porquê, aproveito a pausa para erguer um pequeno boneco de neve!... O vento parece querer dar tréguas e as nuvens começam lentamente a dissipar-se. Com a melhoria do estado do tempo pude finalmente desfrutar de brancas e desafogadas vistas sobre a região do Barroso, em particular sobre o imenso Vale do Alto Rabagão. Na planura do vale estendem-se agora as silenciosas águas de um jovem rio de montanha. Outrora lírico e cantante, o leito do Rio Rabagão é nos dias de hoje apenas (mais) um gigantesco lago de águas amordaçadas e estagnadas, sem vida, sem canto nem encanto.
Paulatinamente, vou-me aproximando da vila de Montalegre, mas não sem antes passar pelo sempre aprazível parque de lazer da Corujeira. Em anteriores visitas estivais, acabava invariavelmente por dormitar uma pequena sesta, deitado na erva verde e fresca. A sensação de o ver branco como neste dia foi verdadeiramente estranha... mas ao mesmo tempo maravilhosa! O meu olhar detém-se para norte. Vejo uma enorme massa de nuvens carregadas envolvendo a área onde se ergue a imponente Serra do Larouco. O vento volta a soprar com bastante intensidade e a colossal massa de nuvens vai-se aproximando cada vez mais da pequena vila transmontana. Dentro em breve voltaria a nevar. Desço e procuro abrigo nas quentes e acolhedoras paredes de uma casa barrosã.
Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)