Fotografias & Histórias de Montanha

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Nas asas da aurora

 

Espelho de água na Albufeira do Alto Cávado, Barroso

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.8
1/100 seg
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Saio da tenda para ver como está o tempo. Está frio, apesar de estarmos em pleno mês de Agosto. Tínhamos bivacado junto a uma albufeira, muito próximos do lençol de água. Apesar do frio, não está vento, e o espelho de água na albufeira parece estar perfeito. Volto á tenda para ir buscar a máquina fotográfica. Mas primeiro quero acender o fogareiro e preparar um delicioso café da manhã! Com o estômago aconchegado, dirijo-me para um local que tinha previamente estudado no dia anterior. Com um pouco de sorte, talvez consiga captar através da lente da máquina fotográfica um dos momentos mágicos do dia: o nascer do sol. Firme e hirto, aguardo que a noite se desvaneça e o astro rei faça a sua entrada triunfal.
Ouço o fecho éclair de uma outra tenda abrir. Um dos nossos amigos decide juntar-se a mim. <<Porra... está frio!...>>, disse ele. Estendo a mão e ofereço-lhe a minha chávena de café. Nesse preciso instante rompia de forma fulgurante uma alba jovial e purpúrea. Já conseguíamos vislumbrar a silhueta das montanhas que nos circundavam e as inúmeras manchas de carvalhos que polvilham os montes da região. A negridão iluminava-se e o dia começava lentamente a escorrer nas asas da aurora. A placidez do céu, o ar sereno, e a luz diáfana, mais não eram que sinais de um prometedor e fecundo dia de montanha. Assim foi.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

"Crac... Crac..."


Miradouro da Senhora das Treburas, Barroso

Detalhes do registo fotográfico:
F/8
1/500 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Ainda de madrugada, o despertador toca. Saio da cama, visto um casaco, abro a porta e saio para dar uma pequena volta. A aldeia de Penedones encontra-se coberta por um admirável manto branco. Tinha caído um forte nevão durante a noite. Sabia de antemão que as previsões meteorológicas apontavam para a possibilidade de queda de neve, mas não esperava que a cota baixasse de forma considerável e a neve caísse com esta intensidade. Entro no pequeno alojamento de turismo rural e preparo meticulosamente a mochila. O nevão poderia por em causa o plano que tinha delineado para este segundo e último dia da minha travessia em solitário pela região do Barroso. Apesar de não ser a primeira vez que caminharia sobre neve, teria que ter o máximo de cuidado para não correr riscos desnecessários.
Enquanto percorro as ruelas da fantasmagórica aldeia, fico com a ideia de que sou o único que por aqui anda, embora algumas pessoas tenham já se levantado, a julgar pelo fumo que lentamente vejo sair das chaminés de algumas casas. Ainda antes de sair do aldeamento, devolvo o olhar para o modesto alojamento que tão bem me acolheu no dia anterior e sinto pela última vez a quentura e o aconchego das suas paredes, em pleno contraste com o ar gélido e o vento tenebroso do exterior. Deixo as lamúrias para trás e entro na montanha propriamente dita. Apesar da acumulação de neve ser cada vez maior, a progressão era feita de uma forma relativamente rápida e segura, sendo cada vez mais audível o crac... crac... dos meus passos na neve gelada. Quando estava a uns escassos metros de alcançar o colo de montanha do Boqueiro do Avelar, o vento começa a soprar com ainda mais intensidade, arrastando consigo alguma neve. O incómodo era tanto que decido abrigar-me provisoriamente no interior de um pinhal, onde, e vá-se lá saber o porquê, aproveito a pausa para erguer um pequeno boneco de neve!... O vento parece querer dar tréguas e as nuvens começam lentamente a dissipar-se. Com a melhoria do estado do tempo pude finalmente desfrutar de brancas e desafogadas vistas sobre a região do Barroso, em particular sobre o imenso Vale do Alto Rabagão. Na planura do vale estendem-se agora as silenciosas águas de um jovem rio de montanha. Outrora lírico e cantante, o leito do Rio Rabagão é nos dias de hoje apenas (mais) um gigantesco lago de águas amordaçadas e estagnadas, sem vida, sem canto nem encanto.
Paulatinamente, vou-me aproximando da vila de Montalegre, mas não sem antes passar pelo sempre aprazível parque de lazer da Corujeira. Em anteriores visitas estivais, acabava invariavelmente por dormitar uma pequena sesta, deitado na erva verde e fresca. A sensação de o ver branco como neste dia foi verdadeiramente estranha... mas ao mesmo tempo maravilhosa! O meu olhar detém-se para norte. Vejo uma enorme massa de nuvens carregadas envolvendo a área onde se ergue a imponente Serra do Larouco. O vento volta a soprar com bastante intensidade e a colossal massa de nuvens vai-se aproximando cada vez mais da pequena vila transmontana. Dentro em breve voltaria a nevar. Desço e procuro abrigo nas quentes e acolhedoras paredes de uma casa barrosã.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)