Fraga da Brazalite (esquerda) e Fraga da Carvalhosa (direita), Serra do Gerês
Detalhes do registo fotográfico:
F/6.3
1/400 seg
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8
A aldeia barrosã de Pitões das Júnias, situada na parte oriental do Parque Nacional da Peneda-Gerês, a 1132 metros de altitude, é muito provavelmente o ponto de partida para alguns dos melhores trilhos de montanha em Portugal. Tínhamos planeado passar o fim-de-semana na aldeia e aproveitar a ocasião para explorar um pouco mais a área envolvente. Percorrendo um caminho empedrado, que progressivamente vai-se afastando do casario da aldeia, passando de seguida pelos campos agrícolas, descemos até um belíssimo vale, recortado pelo Ribeiro do Beredo. Para nossa total surpresa e espanto, enquanto descíamos em direcção ao vale, avistamos uma família de javalis! Como é natural, no preciso instante em que se aperceberam da nossa presença, desataram a correr que nem doidos, embrenhando-se de forma rápida e ruidosa no denso bosque de carvalhos.
Já no vale, decidimos acompanhar a subida do ribeiro, percorrendo de forma lenta e pausada as suas margens, protegidos do sol pelas copas das árvores, desfrutando do momento. Tivemos ainda o prazer de observar algumas espécies endémicas da Serra do Gerês, que afortunadamente iam surgindo no caminho, como foi o caso do Lírio-do-Gerês (Iris Boissieri). De corpo esbelto, postura elegante e com uma sedutora coloração violácea, é sem dúvida alguma uma planta de uma beleza arrebatadora. A sua beleza ímpar é também responsável pelo seu actual estado de vulnerabilidade e declínio, tornando-a num alvo apetecível para os colecionadores.
Transposto o vale, chegamos a um pequeno colo de montanha. Diante de nós tínhamos agora um cenário completamente diferente. O abrigo anteriormente fornecido pelo vale dava lugar a uma paisagem aberta, composta essencialmente por muita pedra solta e rocha: a caótica cabeceira do Ribeiro dos Fornos, coroada pelos gigantes de granito dos Cornos da Fonte Fria-Gralheira. Irrompendo abruptamente das entranhas da terra, a verticalidade das fragas é de tal forma esmagadora, que nos sentimos na pele do pequeno Gulliver, encolhido e assustado, no reino dos gigantes de Brobdingnag.
Com o máximo de cuidado e (muita) contensão de nervos, lá conseguimos escalar o arcaboiço de um dos gigantes (Fraga da Carvalhosa, 1359m). Enquanto ia contemplando o impressionante serrilhado da vertente oriental da Serra do Gerês, os meus ouvidos captaram um som estranho e ao mesmo tempo arrepiante. Um misto de estupefacção e de um certo incómodo tomou conta do grupo. Olhávamos uns para os outros com cara de parvos, até que um dos nossos amigos quebrou o silêncio, dizendo: <<Vocês ouviram o mesmo que eu? Parecia um uivo de um lobo...?>> Ficamos ainda mais incrédulos quando alguns segundos depois um novo e intenso uivo fez-se ouvir novamente. Nem queríamos acreditar!!! Pausadamente, e ainda a recuperar o fôlego da experiência que tínhamos acabado de vivenciar, retomamos o trilho em direcção á aldeia, aproveitando os últimos raios de luz do dia para muita fotografia.
Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)