Envolvente ribeirinha da Ribeira da Lage, Serra da Cabreira
Detalhes do registo fotográfico:
F/2.8
1/13 seg.
6 mm
ISO-200
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8
Localizada na vertente sudeste da Serra da Cabreira e fruto da intervenção dos extintos Serviços Florestais do Estado (meados do séc.XX), encontra-se uma das mais belas florestas do país: a Costa dos Castanheiros. De um inegável valor ecológico, mas também estético, a mancha florestal da Costa dos Castanheiros é um pequeno santuário natural. O delicado e harmonioso equilíbrio existente entre diferentes tipos de árvores, aliado à presença constante de várias linhas de água de carácter permanente, transformam este recanto da Cabreira num dos últimos bastiões de floresta nativa do país. Penetrar no interior destes bosques é como regressar a uma espécie de primitiva pureza, a um mundo virginal, felizmente (ainda) não infestado por espécies invasoras contemporâneas, como a merda das mimosas e o eucalipto.
Certo dia, numa das minhas incursões exploratórias, enquanto caminhava sozinho por trilhos há muito esquecidos e completamente dissimulados por entre a vegetação e o arvoredo, uma estranha e perturbadora sensação de inquietude apoderou-se de mim. Várias perguntas, surgidas não sei bem de onde, impunham-se de uma forma vil e firme. Teria de encontrar as respostas para este inesperado e ao mesmo tempo tormentoso dilema: Estaria eu obrigado a esconder este santuário natural, deixando-o tal como o encontro, intacto? Caso optasse por essa decisão, não estaria a ser egoísta, ao querer ficar com ele só para mim? Ou, em contrapartida, teria o dever de revelá-lo, expondo-o? E se o revelasse não estaria a ser, de certo modo, cúmplice, ao permitir que algumas pessoas incautas pudessem ter acesso a este templo sagrado, profanando-o?
Decido fazer uma pequena pausa, sentando-me junto ao tronco de um aprumado cipreste-português (Cupressus Lusitanica). Retiro da mochila o meu termo e bebo um longo trago de chá quente. Reflito um pouco. Se não me fosse facultado o acesso ao conhecimento e à informação, como poderia sequer ter uma ínfima noção da riqueza natural deste lugar? Como poderia saber da sua extrema importância ambiental e ecológica, da diversidade da sua fauna e flora? Afinal de contas, foi precisamente através da partilha de informação que pela primeira vez tive conhecimento da sua existência. Curiosamente (ou talvez não), de cada vez que regressei a este santuário natural nunca mais me sentei sozinho junto ao tronco de uma árvore.
Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)