Fotografias & Histórias de Montanha

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Dilema


Envolvente ribeirinha da Ribeira da Lage, Serra da Cabreira

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.8
1/13 seg.
6 mm
ISO-200
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Localizada na vertente sudeste da Serra da Cabreira e fruto da intervenção dos extintos Serviços Florestais do Estado (meados do séc.XX), encontra-se uma das mais belas florestas do país: a Costa dos Castanheiros. De um inegável valor ecológico, mas também estético, a mancha florestal da Costa dos Castanheiros é um pequeno santuário natural. O delicado e harmonioso equilíbrio existente entre diferentes tipos de árvores, aliado à presença constante de várias linhas de água de carácter permanente, transformam este recanto da Cabreira num dos últimos bastiões de floresta nativa do país. Penetrar no interior destes bosques é como regressar a uma espécie de primitiva pureza, a um mundo virginal, felizmente (ainda) não infestado por espécies invasoras contemporâneas, como a merda das mimosas e o eucalipto.
Certo dia, numa das minhas incursões exploratórias, enquanto caminhava sozinho por trilhos há muito esquecidos e completamente dissimulados por entre a vegetação e o arvoredo, uma estranha e perturbadora sensação de inquietude apoderou-se de mim. Várias perguntas, surgidas não sei bem de onde, impunham-se de uma forma vil e firme. Teria de encontrar as respostas para este inesperado e ao mesmo tempo tormentoso dilema: Estaria eu obrigado a esconder este santuário natural, deixando-o tal como o encontro, intacto? Caso optasse por essa decisão, não estaria a ser egoísta, ao querer ficar com ele só para mim? Ou, em contrapartida, teria o dever de revelá-lo, expondo-o? E se o revelasse não estaria a ser, de certo modo, cúmplice, ao permitir que algumas pessoas incautas pudessem ter acesso a este templo sagrado, profanando-o?
Decido fazer uma pequena pausa, sentando-me junto ao tronco de um aprumado cipreste-português (Cupressus Lusitanica). Retiro da mochila o meu termo e bebo um longo trago de chá quente. Reflito um pouco. Se não me fosse facultado o acesso ao conhecimento e à informação, como poderia sequer ter uma ínfima noção da riqueza natural deste lugar? Como poderia saber da sua extrema importância ambiental e ecológica, da diversidade da sua fauna e flora? Afinal de contas, foi precisamente através da partilha de informação que pela primeira vez tive conhecimento da sua existência. Curiosamente (ou talvez não), de cada vez que regressei a este santuário natural nunca mais me sentei sozinho junto ao tronco de uma árvore.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Por montes e vales do Barroso

 

Cumeada transfronteiriça (Rochão, 1401m), Barroso

Detalhes do registo fotográfico:
F/8
1/200 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


O Barroso é um reino. Um pequeno reino de montes e vales encarquilhados e encaixado no extremo norte de Portugal. A acidentada orografia do terreno, aliada a um clima implacavelmente agreste, moldou não apenas a terra, como também as suas gentes. O isolamento geográfico da região, acrescido com um crescente e sistemático sentimento de abandono das populações locais face aos representantes do poder político, fez com que se enraíza-se nas Terras de Barroso uma identidade cultural muito própria, assente em valores centrados na defesa da honra e na salvaguarda do seu bem mais precioso: a terra. Fruto acumulado de anos e anos de experiência, as gentes barrosãs, de uma forma sábia e ponderada, souberam usar os recursos naturais da região para retirar o seu sustento, moldando a embrutecida paisagem de uma forma ordeira e harmoniosa, criando um equilíbrio perfeito entre as necessidades do homem e a preservação do meio ambiente.
Em meados do século passado, o poder político descobriu no amplo planalto barrosão um recurso natural precioso e abundante: a água. Deu-se então início á construção de inúmeras barragens, sem qualquer tipo de preocupação com o impacto ambiental e paisagístico provocado por esse fenómeno que, segundo os mais altos representantes do regime fascista, iria dotar a região de infraestruturas modernas, colocando-a finalmente na rota do progresso e desenvolvimento. Com o lento passar das eras e a consequente transição político-social (queda do regime fascista e o surgimento da democracia parlamentar), uma nova onda de modernidade varreu a região. As chamadas energias verdes (eólicas) instalaram-se nos altos píncaros serranos. As terras altas de Barroso viram-se, num abrir e fechar de olhos, parasitadas por um sem número de gigantescas torres eólicas. Criou-se uma mão cheia de parques eólicos, esventraram-se os montes com a abertura de estradas e os mais recônditos ermos serranos tornaram-se acessíveis ao mais comum dos incautos.
Contudo, e apesar da mutilação paisagística perpetrada no território ao longo do tempo, a verdade é que os montes barrosões preservam ainda alguns locais surpreendentemente impolutos, quase intocados pela mão do homem, permitindo-nos vislumbrar o outrora Barroso bravio e selvagem. As encostas da vertente oeste da Serra do Larouco (refiro-me em concreto a uma imponente linha de cumeada transfronteiriça que se estende desde o Coto de Sendim até ao Alto de Vaires, já nas faldas do planalto da Mourela) preservam aquele que é, na minha opinião, um dos últimos redutos de vida selvagem que nos dias de hoje podemos encontrar nas Terras de Barroso.
Enquanto caminhava, uma pergunta, no entanto, pairava solenemente sob um radiante céu azul, balanceando ao sabor do cortante vento galego: quando chegará, afinal de contas, o funesto dia da profanação destes montes? Por quanto mais tempo eles manter-se-ão tal como estão, imaculados? Certamente que os representantes do poder político, de uma forma sábia e ponderada, encontrarão as melhores respostas.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)