Fotografias & Histórias de Montanha

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Subida aos Deus Larouco


Vertente sudeste da Serra do Larouco

Detalhes do registo fotográfico:
F/6.3
1/400 seg.
22 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Segundo os investigadores, a origem do topónimo Larouco deriva de um antigo culto pagão associado ao Deus Larouco, uma divindade do panteão Celta, também conhecido como deus do trovão, da metalurgia e da fertilidade. Apesar do culto pagão ter sido substituído pelo cristão, a verdade é que ainda há relativamente pouco tempo atrás, jovens dos dois lados da raia reuniam-se no cume da montanha para homenagear o Deus Larouco, numa tentativa de avivar a memória de uma cultura ancestral, intrinsecamente ligada à Natureza e fortemente enraizada nos usos e costumes das gentes locais.
Ainda mal acabávamos de dar os primeiros passos, e já pressentíamos que não podíamos ter escolhido uma melhor altura para a subida ao cume do Larouco (1525m). O dia apresentava-se soalheiro, mas no céu pairavam nuvens carregadas, tornando o cenário mais tenebroso e espectacular. Os montes do Larouco voltavam a ganhar vida, despontando do longo e rigoroso inverno barrosão. A Primavera chegara com uma pujança invejável, e a erva quase que parecia engolir os montes. As encostas da montanha encontravam-se densamente cobertas por erva viçosa e espessa, e as flores carregavam os montes de cor. As manchas de urze a carqueja encontravam-se em plena floração, e cada uma delas estendia o seu manto, salpicando a paisagem com o seu colorido.
Depois de uma árdua subida (decidimos abandonar o confortável caminho florestal e subir em corta mato a íngreme vertente sudeste da serra), atingimos o cume da montanha. E mesmo aqui, já bem perto da cota dos 1500m, o jardim do éden continuava, com pequenas flores silvestres a atapetar o solo. O marco geodésico do Larouco estava ali mesmo, a uns escassos metros, mas as vistas, essas, prolongavam-se para longe, bem longe! Do cume do Larouco todas as outras montanhas parecem perder toda a sua imponência e altivez. Ourigo, Barroso, Cabreira, Gerês, Soajo e Peneda, surpreendentes, misteriosas, selvagens e bravias quando caminhamos no seu seio materno, do topo do Larouco não passam de pequenos e enfadonhos montes, prostrados diante de um perfil austero e dominador: o Larouco.
A descida acabou por ser efectuada num bom ritmo, e a aldeia de Gralhas ali estava para nos acolher, preguiçosamente estendida no perfumado e florido planalto barrosão. Quando fomos a dar conta, estávamos já a percorrer as vielas da aldeia, parando aqui e acolá para os já habituais 2 dedos de conversa com as gentes locais. E que dizer daquelas bejecas geladinhas, atenciosamente servidas no café local e devidamente acompanhadas com tremoços e amendoins salgados? Souberam-nos divinamente! Um final de dia perfeito, em mais uma jornada pelas místicas terras barrosãs.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


quinta-feira, 14 de outubro de 2021

A lenda da Serra da Mourela

 

Campina serrana (mosaico agro-silvo-pastoril), Serra da Mourela

Detalhes do registo fotográfico:
F/5.6
1/400 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


"Conta-se que, quando os mouros foram expulsos pelos cristãos das terras do norte, havia uma mulher moura que estava grávida e que teve as dores de parto no momento da fuga. Escondeu-se, por isso, numa gruta para puder ter o filho. Todos os mouros foram embora, mas ela ficou naquela gruta para criar o filho, e o povo diz que durante muito tempo se ouviu a moura a entoar bonitas canções de embalar. A gruta ficou assim conhecida como a Pedra da Moura, e a serra onde ela está situada é a Serra da Mourela. Fica entre as aldeias de Pitões das Júnias e Tourém, no concelho de Montalegre."

Desligo o computador e já não quero saber de mais nada. Estava lançado o mote para mais uma incursão ao sempre belo (e místico) Barroso. Porém, a verdade é que acabei por não encontrar a gruta da Pedra da Moura. Mas como poderia eu encontrá-la, quando nem sequer me dei ao trabalho de a procurar! Não tinha propriamente um plano definido, um trilho a seguir. E tão pouco me lembrei de levar a carta militar, quanto mais um desses dispositivos electrónicos com sistema GPS integrado. Caso não encontrasse a benfazeja gruta, paciência. Seja como for, o que tinha em mente e o que realmente pretendia, era pura e simplesmente voltar a caminhar na montanha, sentir uma vez mais o aconchego do seu abraço, depois de um longo e forçado período de ausência.
Contrariamente ao que é usual, em vez de atirar-me freneticamente ao encontro da ansiada aventura, desta vez optei por caminhar de forma serena e totalmente descomprometida, vadiando fortuitamente por entre a imensidão dos céus e das montanhas. E foi assim, sem nada pedir e quando menos esperava, que a Mourela, quente e desanuviada, veio ter comigo. E então pude finalmente tocá-la na fragilidade dos seus campos de algodão, enterrar-me até aos tornozelos na terra húmida e balofa das suas turfeiras, ouvindo o sussurro do vento que, ao passar de mansinho nas aplanadas encostas da montanha, ia delicadamente penteando as viçosas searas da campina serrana... Assim é a Mourela. Uma serra que nos faz sonhar, acordados! Delírios de um eterno andarilho na mais pura e solene entrega à Natureza, à vida ao ar livre? Com certeza que sim!!! Ou será que esses supostos delírios mais não são que a vivência de um sonho tornado realidade? Um sonho que abrolha e floresce a cada nova incursão a esse lugar misterioso, divino, e infinitamente belo: a Montanha.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)