Fotografias & Histórias de Montanha

segunda-feira, 11 de abril de 2022

O velho moinho

 

Melancolia ribeirinha, Ribeira da Póvoa, Serra do Marão

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.8
1/50 seg.
ISO-100
6 mm
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Ainda o sol não tinha raiado e já arrepiáva-mos caminho pelas ondeantes encostas da vertente sul da Serra do Marão. Seguindo o rasto de seculares trilhos de pastoreio, fomos ao encontro do curso de algumas levadas, penetrando em bosques praticamente virginais. Deambulamos pelas ruínas de antigos complexos mineiros e ainda tivemos o tempo e a audácia para encetar a subida a alguns dos mais altaneiros cumes do Marão. Estávamos exaustos... mas ao mesmo tempo felizes. Com as pernas bem moídas depois de um longo dia de caminhada árdua e tecnicamente exigente, a verdade é que já só pensávamos em chegar ao carro e descalçar as botas, quando, numa curva do caminho, deparamo-nos com este velho moinho.
Testemunho petrificado de tempos idos, o moinho encontra-se perfeitamente embutido numa paisagem ribeirinha inundada de doce e terna melancolia. Ao seu lado, um antigo carreteiro de montanha irrompe por uma luxuriante floresta ripícola, onde as indomáveis águas da Ribeira da Póvoa, saltitando de pedra em pedra, murmurando por entre os rochedos, correm em direcção ao Tâmega. 
É precisamente na incessante busca de lugares como este, autênticos e incorruptíveis, que um punhado de aventureiros insiste em romper por trilhos há muito ignorados e irremediavelmente votados ao abandono e esquecimento. Perseguindo uma quimera inútil e sem fim à vista, devoram léguas atrás de léguas e vão conhecendo uma infinidade de terras, procurando assim o único alimento capaz de lhes saciar a fome: a palpitante experiência da descoberta.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


sexta-feira, 1 de abril de 2022

A outra face do Minho


Formações geomorfológicas, Serra D'Arga

Detalhes do registo fotográfico:
F/5.6
1/250 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Aquando da última caminhada por estas bandas fiquei verdadeiramente surpreendido por encontrar no coração do Minho este desconcertante amontoado de pedra e rocha. Aqui, deparamo-nos com um Minho diferente daquele a que estamos normalmente habituados: um Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras, um Minho menos... verde? Ao invés, pisamos terra nua. Enquanto que os conterrâneos de altitudes menos elevadas lavram terra fértil e irrigada, aos de Arga não resta outra solução senão conduzir o gado serra acima, ao encontro das chãs. Lá, os animais obtêm finalmente o merecido repasto, e em certos locais, como que por capricho de forças que nos escapam, um esplendoroso manto verde irrompe por entre a áspera penedia, e a água, fria e pachorrenta, vai abrindo o seu caminho ao longo das turfeiras e charnecas do planalto serrano.
A quentura típica das coloridas e festivas aldeias minhotas, esfuma-se perante tacanhas habitações de granito. Aqui, o minhoto, não me parece pequeno e muito menos castiço. Altivo, um tanto ou quanto carrancudo, cobre-se com uma capa de burel e em vez de uma estridente concertina maneja um tosco cajado de pau. Será que por estas bandas, fortemente impregnadas de uma religiosidade mais postiça do que verdadeiramente sentida, encontramos o arquétipo de um Minho que até hoje não chegou até nós?


Texto e Fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)