Fotografias & Histórias de Montanha

terça-feira, 28 de junho de 2022

Onde está Wally?

 

A misteriosa escultura do Índio da Cabreira, Serra da Cabreira


Detalhes do registo fotográfico:
F/4
1/125 seg.
9 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8



As expectativas para o dia não podiam ser piores. Durante a viagem de carro fomos brindados com uma descomunal descarga de água durante todo o percurso. E chegados à aldeia das Torrinheiras, em Cabeceiras de Basto, a chuva continuava. Timidamente, saímos do carro e fomos tirando a tralha para fora (polainas, ponchos, impermeáveis...). Frio, vento, chuva... Foda-se!!! Saímos da aldeia e nem sequer tivemos a oportunidade de observar o típico casario serrano, edificado com granito da região, em pequenos aglomerados habitacionais de tipo concentrado, tal era o nevoeiro cerrado que não permitia ver mais do que meia dúzia de metros em redor.
Tomando um antigo caminho rural que liga a aldeia a um pequeno conjunto de lameiros localizados no sopé do cume das Torrinheiras (1191m), entramos na planura serrana da Cabreira Barrosã. Apesar de o nevoeiro continuar a esconder as montanhas em redor de nós, a chuva ia caindo com menor intensidade, o que contribuiu para reforçar um pouco o optimismo em relação ao estado do tempo para o resto do dia. Esporadicamente, já usufruíamos de vistas parciais da paisagem serrana, cuja vegetação é composta essencialmente por matos rasteiros, sendo notório o uso intensivo do solo por parte dos pastores locais, dada a abundância de pasto natural que ali podemos encontrar. Foi também por esta altura que deparamo-nos com um cenário macabro: uma carcaça de um garrano adulto, morto recentemente, completamente desfeita e dispersa pelo chão. Aliás, ao longo do dia deparamo-nos com pelo menos mais duas carcaças, para além dos já habituais indícios da presença de lobo (pegadas, dejectos), o que pressupõe que os lobos da região têm andado bastante activos nos últimos tempos, apesar de perseguidos e odiados pelos pastores locais.
Continuando por um trilho de pé posto, iniciamos a descida até ao Vale da Ribeira de Lamas do Miro. Assim que chegamos ao local, demos início a um jogo que nos fez transportar para a saudosa e já longínqua infância: o incontornável "Onde está Wally?". A ideia era simples: Cada um por si, deveria procurar por entre as rochas do local, a face do misterioso Índio da Cabreira. Trata-se, na realidade, de uma escultura cravada na rocha, onde é perfeitamente visível a face de um índio. Mas quem terá sido, afinal de contas, o escultor de semelhante obra? Algum pastor? Não creio. Terá sido um montanheiro? Não me parece. A hipótese mais provável é que talvez tenha sido um hippie, provavelmente um membro da Rainbow Family. O sítio onde se encontra a escultura coincide com o local de concentração de um acampamento que decorre de tempos a tempos naquela zona remota da Serra da Cabreira, e que reúne várias centenas, ou até alguns milhares de hippies, vindos sobretudo da Península Ibérica e de várias partes do continente europeu.
Depois de encontrado e fotografado o nosso Wally, havia chegado a altura de encontrar um local para almoçar. Avistamos uma pequena clareira, no meio de um denso bosque. Decidimos que seria o local perfeito para almoçar. A clareira permitia que de vez em quando os tímidos raios de sol entrassem, aquecendo o local... e nós também! No regresso à aldeia, ainda aproveitamos para dar uma saltada ao Curral da Serra da Maçã, onde alguns bovinos pastavam, juntamente com uma numerosa família de garranos. Já em relação aos lobos, como é natural, não avistamos nenhum! Mas se há algo que um montanheiro vai aprendendo ao longo do tempo, é que não é necessário o seu avistamento para saber que eles (ainda) por aqui andam. E são precisamente os lobos, esses seres míticos e misteriosos, que vão preservando a identidade daquilo que um dia já fomos e que jamais ousaremos ser: selvagens e livres.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


domingo, 5 de junho de 2022

Volúpia

 

Carvalhal de Vergaças, Serra do Gerês

Detalhes do registo fotográfico:
F/4
1/160 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


As folhas que ainda há uns meses atrás pisei,
deixaram de existir.
Outras tomaram o seu lugar.
E vejo-as por toda a parte,
baloiçando ao sabor da brisa,
que vai soprando,
suave e fresca.

O cântico dos ribeiros
já não se ouve,
a sua fúria
amainou.
E o fiozinho de água
que percorre
escondido
o fundo dos vales,
mais não é que tímidas lágrimas
vertidas pelas fragas,
tristes por se verem
despojadas
do seu manto branco,
envergonhadas pelo pudor
da nudez
escancarada.

Paro.
O cansaço não é muito,
mas mesmo assim,
paro.
Paro e deixo o meu corpo tombar
sobre um colchão húmido e fofo,
almofadado
por ervas e fetos.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


quinta-feira, 5 de maio de 2022

Baptismo

 

Ruínas da igreja de S. João da Ramalheira, Serras de Fafe

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.8
1/30 seg.
6 mm
ISO-250
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


De quando em vez, regresso. E cada retorno é como se fosse a primeira vez. Décadas volvidas após as primeiras contemplações da paisagem serrana de Fafe, sempre que lá volto, encontro sempre alguma novidade. Mesmo quando observo uma determinada paisagem pela milésima vez, no mesmo ângulo e na mesma circunstância, ela nunca é a mesma. Nunca se gasta, e tão pouco me aborrece.
As serranias fafenses são o meu torrão natal. A minha ligação a estes montes não é apenas umbilical, é também espiritual. Foi a partir destas serras que dei início a uma ininterrupta vadiagem por montes e vales, por florestas sombrias e descampados flamejantes. Aqui, (re)descobri a minha primitiva pureza. Aqui, aprendi a viver a Natureza integrado nela, con-vivendo com ela.
A sociedade dos homens, nunca a compreendi. A fé dos homens, nunca a senti. Em comunhão com a Natureza a minha vida não se resume a fazer de parafuso! Excomungado e desengonçado da dantesca máquina moderna social, virei-me para os montes, e voltei a recuperar a minha ancestral celticidade. Embrenhado nestes ermos, sou novamente nómada e pagão.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


segunda-feira, 11 de abril de 2022

O velho moinho

 

Melancolia ribeirinha, Ribeira da Póvoa, Serra do Marão

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.8
1/50 seg.
ISO-100
6 mm
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Ainda o sol não tinha raiado e já arrepiáva-mos caminho pelas ondeantes encostas da vertente sul da Serra do Marão. Seguindo o rasto de seculares trilhos de pastoreio, fomos ao encontro do curso de algumas levadas, penetrando em bosques praticamente virginais. Deambulamos pelas ruínas de antigos complexos mineiros e ainda tivemos o tempo e a audácia para encetar a subida a alguns dos mais altaneiros cumes do Marão. Estávamos exaustos... mas ao mesmo tempo felizes. Com as pernas bem moídas depois de um longo dia de caminhada árdua e tecnicamente exigente, a verdade é que já só pensávamos em chegar ao carro e descalçar as botas, quando, numa curva do caminho, deparamo-nos com este velho moinho.
Testemunho petrificado de tempos idos, o moinho encontra-se perfeitamente embutido numa paisagem ribeirinha inundada de doce e terna melancolia. Ao seu lado, um antigo carreteiro de montanha irrompe por uma luxuriante floresta ripícola, onde as indomáveis águas da Ribeira da Póvoa, saltitando de pedra em pedra, murmurando por entre os rochedos, correm em direcção ao Tâmega. 
É precisamente na incessante busca de lugares como este, autênticos e incorruptíveis, que um punhado de aventureiros insiste em romper por trilhos há muito ignorados e irremediavelmente votados ao abandono e esquecimento. Perseguindo uma quimera inútil e sem fim à vista, devoram léguas atrás de léguas e vão conhecendo uma infinidade de terras, procurando assim o único alimento capaz de lhes saciar a fome: a palpitante experiência da descoberta.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


sexta-feira, 1 de abril de 2022

A outra face do Minho


Formações geomorfológicas, Serra D'Arga

Detalhes do registo fotográfico:
F/5.6
1/250 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Aquando da última caminhada por estas bandas fiquei verdadeiramente surpreendido por encontrar no coração do Minho este desconcertante amontoado de pedra e rocha. Aqui, deparamo-nos com um Minho diferente daquele a que estamos normalmente habituados: um Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras, um Minho menos... verde? Ao invés, pisamos terra nua. Enquanto que os conterrâneos de altitudes menos elevadas lavram terra fértil e irrigada, aos de Arga não resta outra solução senão conduzir o gado serra acima, ao encontro das chãs. Lá, os animais obtêm finalmente o merecido repasto, e em certos locais, como que por capricho de forças que nos escapam, um esplendoroso manto verde irrompe por entre a áspera penedia, e a água, fria e pachorrenta, vai abrindo o seu caminho ao longo das turfeiras e charnecas do planalto serrano.
A quentura típica das coloridas e festivas aldeias minhotas, esfuma-se perante tacanhas habitações de granito. Aqui, o minhoto, não me parece pequeno e muito menos castiço. Altivo, um tanto ou quanto carrancudo, cobre-se com uma capa de burel e em vez de uma estridente concertina maneja um tosco cajado de pau. Será que por estas bandas, fortemente impregnadas de uma religiosidade mais postiça do que verdadeiramente sentida, encontramos o arquétipo de um Minho que até hoje não chegou até nós?


Texto e Fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


domingo, 20 de março de 2022

Doce luminosidade

 

Cogumelo silvestre (Amanita Muscaria), Serra da Cabreira

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.8
1/5 seg.
6mm
ISO-200
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


A luz, filtrada pelas folhas das árvores, inundava de doce luminosidade o interior dos bosques. Imbuídos neste universo do Fantástico e Feérico,  os lugares por onde passamos irradiam um bucolismo envolvente que seduz e enfeitiça...!



Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


terça-feira, 1 de março de 2022

A almejada tranquilidade

 

Entrada no Vale do Rio Teixeira, Serra do Gerês

Detalhes do registo fotográfico:
F/5.6
1/500 seg.
6mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Tínhamos planeado uma jornada de travessia na Serra do Gerês. Escolheramos um local isolado e pouco frequentado pelos novos turistas de montanha. Mas um inesperado contratempo forçou-nos a alterar os planos. Resignados (mas não necessariamente vencidos), acabamos por sair do turístico Parque de Campismo do Vidoeiro seguindo as marcações de um percurso homologado. O traçado do percurso desenvolve-se por antigos carreteiros de montanha, ainda hoje utilizados pelos pastores locais para aceder aos prados de altitude (também chamados de currais). Depois de uma extenuante subida, chegamos finalmente ao primeiro prado. E que belo prado ali estava para nos acolher! O chão encontrava-se atapetado por uma infinidade de lindas flores silvestres. A carismática Quita-Merendas (Merendera Montana) é uma presença habitual nos prados, sobretudo no Outono, com a chegada das primeiras chuvas. Era sem dúvida alguma o local ideal para tomarmos o pequeno-almoço e saborearmos um delicioso café da manhã.
Seguindo na direcção norte, rumamos ao Vale do Rio Teixeira. Para além de ser um dos nossos locais predilectos em toda a Serra do Gerês, tínhamos uma ténue esperança de encontrar o vale só para nós... Puro engano. No trajecto que liga o Prado da Lomba do Vidoeiro aos prados localizados ao longo do Vale do Rio Teixeira, cruzamo-nos com imensas pessoas. Enquanto umas iam num passo visivelmente acelerado (praticantes de Trail-Running), outras andavam de forma descontraída e aparentemente errante pelo vale. Mas essas presenças (ao contrário do que estávamos á espera) não eram de todo incomodativas. Muito pelo contrário. A boa disposição reinava, dizendo e ouvindo com um sorriso nos lábios muitos "Bom-dia!". Ao contrário do que se sucede nos meses de Verão, com a constante presença de gente no vale, não havia lixo no chão, nem as pressas e os atropelos provocados por uma frenética procura por pequenos charcos de água. Quem por ali andava tinha ido única e exclusivamente ao encontro da tranquilidade que apenas se encontra neste tipo de ambiente. Nitidamente, a montanha voltava a ser acarinhada por quem nela não procura mais que um simples e fugaz momento de deslumbramento.
Apesar das coisas não terem corrido conforme o planeado, a verdade é que mesmo assim não deixamos de desfrutar de um belo dia de montanha, apreciando com a devida calma e serenidade da majestosidade e o silêncio reinante do imenso Vale do Rio Teixeira. Sem pressas ou atropelos.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Dilema


Envolvente ribeirinha da Ribeira da Lage, Serra da Cabreira

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.8
1/13 seg.
6 mm
ISO-200
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Localizada na vertente sudeste da Serra da Cabreira e fruto da intervenção dos extintos Serviços Florestais do Estado (meados do séc.XX), encontra-se uma das mais belas florestas do país: a Costa dos Castanheiros. De um inegável valor ecológico, mas também estético, a mancha florestal da Costa dos Castanheiros é um pequeno santuário natural. O delicado e harmonioso equilíbrio existente entre diferentes tipos de árvores, aliado à presença constante de várias linhas de água de carácter permanente, transformam este recanto da Cabreira num dos últimos bastiões de floresta nativa do país. Penetrar no interior destes bosques é como regressar a uma espécie de primitiva pureza, a um mundo virginal, felizmente (ainda) não infestado por espécies invasoras contemporâneas, como a merda das mimosas e o eucalipto.
Certo dia, numa das minhas incursões exploratórias, enquanto caminhava sozinho por trilhos há muito esquecidos e completamente dissimulados por entre a vegetação e o arvoredo, uma estranha e perturbadora sensação de inquietude apoderou-se de mim. Várias perguntas, surgidas não sei bem de onde, impunham-se de uma forma vil e firme. Teria de encontrar as respostas para este inesperado e ao mesmo tempo tormentoso dilema: Estaria eu obrigado a esconder este santuário natural, deixando-o tal como o encontro, intacto? Caso optasse por essa decisão, não estaria a ser egoísta, ao querer ficar com ele só para mim? Ou, em contrapartida, teria o dever de revelá-lo, expondo-o? E se o revelasse não estaria a ser, de certo modo, cúmplice, ao permitir que algumas pessoas incautas pudessem ter acesso a este templo sagrado, profanando-o?
Decido fazer uma pequena pausa, sentando-me junto ao tronco de um aprumado cipreste-português (Cupressus Lusitanica). Retiro da mochila o meu termo e bebo um longo trago de chá quente. Reflito um pouco. Se não me fosse facultado o acesso ao conhecimento e à informação, como poderia sequer ter uma ínfima noção da riqueza natural deste lugar? Como poderia saber da sua extrema importância ambiental e ecológica, da diversidade da sua fauna e flora? Afinal de contas, foi precisamente através da partilha de informação que pela primeira vez tive conhecimento da sua existência. Curiosamente (ou talvez não), de cada vez que regressei a este santuário natural nunca mais me sentei sozinho junto ao tronco de uma árvore.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Por montes e vales do Barroso

 

Cumeada transfronteiriça (Rochão, 1401m), Barroso

Detalhes do registo fotográfico:
F/8
1/200 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


O Barroso é um reino. Um pequeno reino de montes e vales encarquilhados e encaixado no extremo norte de Portugal. A acidentada orografia do terreno, aliada a um clima implacavelmente agreste, moldou não apenas a terra, como também as suas gentes. O isolamento geográfico da região, acrescido com um crescente e sistemático sentimento de abandono das populações locais face aos representantes do poder político, fez com que se enraíza-se nas Terras de Barroso uma identidade cultural muito própria, assente em valores centrados na defesa da honra e na salvaguarda do seu bem mais precioso: a terra. Fruto acumulado de anos e anos de experiência, as gentes barrosãs, de uma forma sábia e ponderada, souberam usar os recursos naturais da região para retirar o seu sustento, moldando a embrutecida paisagem de uma forma ordeira e harmoniosa, criando um equilíbrio perfeito entre as necessidades do homem e a preservação do meio ambiente.
Em meados do século passado, o poder político descobriu no amplo planalto barrosão um recurso natural precioso e abundante: a água. Deu-se então início á construção de inúmeras barragens, sem qualquer tipo de preocupação com o impacto ambiental e paisagístico provocado por esse fenómeno que, segundo os mais altos representantes do regime fascista, iria dotar a região de infraestruturas modernas, colocando-a finalmente na rota do progresso e desenvolvimento. Com o lento passar das eras e a consequente transição político-social (queda do regime fascista e o surgimento da democracia parlamentar), uma nova onda de modernidade varreu a região. As chamadas energias verdes (eólicas) instalaram-se nos altos píncaros serranos. As terras altas de Barroso viram-se, num abrir e fechar de olhos, parasitadas por um sem número de gigantescas torres eólicas. Criou-se uma mão cheia de parques eólicos, esventraram-se os montes com a abertura de estradas e os mais recônditos ermos serranos tornaram-se acessíveis ao mais comum dos incautos.
Contudo, e apesar da mutilação paisagística perpetrada no território ao longo do tempo, a verdade é que os montes barrosões preservam ainda alguns locais surpreendentemente impolutos, quase intocados pela mão do homem, permitindo-nos vislumbrar o outrora Barroso bravio e selvagem. As encostas da vertente oeste da Serra do Larouco (refiro-me em concreto a uma imponente linha de cumeada transfronteiriça que se estende desde o Coto de Sendim até ao Alto de Vaires, já nas faldas do planalto da Mourela) preservam aquele que é, na minha opinião, um dos últimos redutos de vida selvagem que nos dias de hoje podemos encontrar nas Terras de Barroso.
Enquanto caminhava, uma pergunta, no entanto, pairava solenemente sob um radiante céu azul, balanceando ao sabor do cortante vento galego: quando chegará, afinal de contas, o funesto dia da profanação destes montes? Por quanto mais tempo eles manter-se-ão tal como estão, imaculados? Certamente que os representantes do poder político, de uma forma sábia e ponderada, encontrarão as melhores respostas.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Entre gigantes


Fraga da Brazalite (esquerda) e Fraga da Carvalhosa (direita), Serra do Gerês

Detalhes do registo fotográfico:
F/6.3
1/400 seg
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


A aldeia barrosã de Pitões das Júnias, situada na parte oriental do Parque Nacional da Peneda-Gerês, a 1132 metros de altitude, é muito provavelmente o ponto de partida para alguns dos melhores trilhos de montanha em Portugal. Tínhamos planeado passar o fim-de-semana na aldeia e aproveitar a ocasião para explorar um pouco mais a área envolvente. Percorrendo um caminho empedrado, que progressivamente vai-se afastando do casario da aldeia, passando de seguida pelos campos agrícolas, descemos até um belíssimo vale, recortado pelo Ribeiro do Beredo. Para nossa total surpresa e espanto, enquanto descíamos em direcção ao vale, avistamos uma família de javalis! Como é natural, no preciso instante em que se aperceberam da nossa presença, desataram a correr que nem doidos, embrenhando-se de forma rápida e ruidosa no denso bosque de carvalhos. 
Já no vale, decidimos acompanhar a subida do ribeiro, percorrendo de forma lenta e pausada as suas margens, protegidos do sol pelas copas das árvores, desfrutando do momento. Tivemos ainda o prazer de observar algumas espécies endémicas da Serra do Gerês, que afortunadamente iam surgindo no caminho, como foi o caso do Lírio-do-Gerês (Iris Boissieri). De corpo esbelto, postura elegante e com uma sedutora coloração violácea, é sem dúvida alguma uma planta de uma beleza arrebatadora. A sua beleza ímpar é também responsável pelo seu actual estado de vulnerabilidade e declínio, tornando-a num alvo apetecível para os colecionadores.
Transposto o vale, chegamos a um pequeno colo de montanha. Diante de nós tínhamos agora um cenário completamente diferente. O abrigo anteriormente fornecido pelo vale dava lugar a uma paisagem aberta, composta essencialmente por muita pedra solta e rocha: a caótica cabeceira do Ribeiro dos Fornos, coroada pelos gigantes de granito dos Cornos da Fonte Fria-Gralheira. Irrompendo abruptamente das entranhas da terra, a verticalidade das fragas é de tal forma esmagadora, que nos sentimos na pele do pequeno Gulliver, encolhido e assustado, no reino dos gigantes de Brobdingnag.
Com o máximo de cuidado e (muita) contensão de nervos, lá conseguimos escalar o arcaboiço de um dos gigantes (Fraga da Carvalhosa, 1359m). Enquanto ia contemplando o impressionante serrilhado da vertente oriental da Serra do Gerês, os meus ouvidos captaram um som estranho e ao mesmo tempo arrepiante. Um misto de estupefacção e de um certo incómodo tomou conta do grupo. Olhávamos uns para os outros com cara de parvos, até que um dos nossos amigos quebrou o silêncio, dizendo: <<Vocês ouviram o mesmo que eu? Parecia um uivo de um lobo...?>> Ficamos ainda mais incrédulos quando alguns segundos depois um novo e intenso uivo fez-se ouvir novamente. Nem queríamos acreditar!!! Pausadamente, e ainda a recuperar o fôlego da experiência que tínhamos acabado de vivenciar, retomamos o trilho em direcção á aldeia, aproveitando os últimos raios de luz do dia para muita fotografia.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)