Encosta do Sol, Serra do Gerês
Detalhes do registo fotográfico:
F/4
1/400seg.
7mm
ISO-100
Câmara Canon Power Shot A630
Agosto. O mês em que rebanhos de turistas furiosos invadem os ermos mais inóspitos das penedias geresianas. Nos dias mais quentes, intermináveis filas de carros congestionam as estradas de acesso às principais atracções banhistas da região. Apesar do excesso de gente na montanha, pretendíamos, mesmo assim, colocar em marcha um plano que havíamos ambicionado há já muito tempo: subir o grande Vale do Rio Homem e pernoitar nas míticas Minas dos Carris. Deixando a fronteira da Portela do Homem para trás, dirigimo-nos à incontornável Cascata de S. Miguel. Como o habitual arraial de verão estava já montado, passamos ao lado e enveredamos por aquele que se tornou um dos trilhos mais fascinantes e ao mesmo tempo irritantes em toda a Serra do Gerês. Do antigo caminho mineiro já só resta um longo e penoso amontoado de pedras soltas, esculpido ao longo do vale, sobranceiro ao Rio Homem. Formado há milhares de anos, o Vale Glaciar do Rio Homem é um verdadeiro tesouro natural e paisagístico. Por este vale passou em tempos um antigo glaciar, formado por enormes massas de gelo, que devido á gravidade, deslocavam-se de forma lenta e progressiva, moldando a superfície da montanha, formando o característico vale em forma de U. Com a temperatura a subir a pique e a zona lombar a reclamar por esta altura o excesso de peso das mochilas (comida, roupas, tenda, saco-cama...), aproveitamos a companhia do jovem Rio Homem e das suas lagoas naturais para uns merecidos mergulhos, refrescando o corpo e lavando a alma nas suas águas límpidas e frescas.
Á medida que a grande muralha do vale ia ficando para trás (e os turistas também), um pequeno planalto extendia-se agora diante de nós. Acima das nossas cabeças, aves de rapina pairavam no céu, bandos de cabras montesas pulavam e saltavam nas arestas mais íngremes e inacessíveis da montanha, dezenas de garranos tasquinhavam o solo por entre as ruínas do antigo complexo mineiro, á procura de tufos de erva fresca. Após uma rápida inspecção ao local, ficamos com dúvidas sobre se deveríamos pernoitar ali. Apesar de haver água, duvidamos da qualidade da mesma. A pouca água existente encontrava-se demasiado estagnada e havia muito gado nas redondezas, fazendo das antigas minas de extracção de volfrâmio a sua casa de banho...! Com o sol a esconder-se por detrás do pico altaneiro dos Carris (1508m), chegamos por fim a um belo prado verdejante, bordeado por um fiozinho de água que corria ali mesmo ao lado. Era sem dúvida alguma o local ideal para montar o bivaque. Já com as lanternas e os frontais ligados, dividimos rapidamente as tarefas, e enquanto uns montavam as tendas, outros recolhiam lenha e preparavam o jantar.
Sentados á volta da fogueira, comendo o nosso jantar de montanha: massas para uns, feijoada para outros, questionamos sobre o que estariam a fazer naquele preciso momento os turistas que avistamos ao longo do dia. Muito provavelmente, estariam já instalados no conforto de um bom hotel, onde há Internet, TV por cabo, água quente e ar condicionado. Mas apesar do nosso alojamento não estar de todo incluído na restrita lista de hotéis de 5 estrelas, a verdade é que nessa noite não nos faltaram as estrelas lá em cima, povoando um céu magnificamente negro e ao mesmo tempo cintilante, rasgado de quando em vez por uns quantos cometas, que tão depressa apareciam como desapareciam, sob o olhar incrédulo de um pequeno grupo de amigos, vivenciando aquela que terá sido, porventura, uma das noites mais inesquecíveis das suas vidas.
Fotografia © Pedro Afonso (Todos os direitos reservados)
Texto © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)




