Fotografias & Histórias de Montanha

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

A grande muralha do Vale do Rio Homem

 

Encosta do Sol, Serra do Gerês

Detalhes do registo fotográfico:
F/4
1/400seg.
7mm
ISO-100
Câmara Canon Power Shot A630


Agosto. O mês em que rebanhos de turistas furiosos invadem os ermos mais inóspitos das penedias geresianas. Nos dias mais quentes, intermináveis filas de carros congestionam as estradas de acesso às principais atracções banhistas da região. Apesar do excesso de gente na montanha, pretendíamos, mesmo assim, colocar em marcha um plano que havíamos ambicionado há já muito tempo: subir o grande Vale do Rio Homem e pernoitar nas míticas Minas dos Carris. Deixando a fronteira da Portela do Homem para trás, dirigimo-nos à incontornável Cascata de S. Miguel. Como o habitual arraial de verão estava já montado, passamos ao lado e enveredamos por aquele que se tornou um dos trilhos mais fascinantes e ao mesmo tempo irritantes em toda a Serra do Gerês. Do antigo caminho mineiro já só resta um longo e penoso amontoado de pedras soltas, esculpido ao longo do vale, sobranceiro ao Rio Homem. Formado há milhares de anos, o Vale Glaciar do Rio Homem é um verdadeiro tesouro natural e paisagístico. Por este vale passou em tempos um antigo glaciar, formado por enormes massas de gelo, que devido á gravidade, deslocavam-se de forma lenta e progressiva, moldando a superfície da montanha, formando o característico vale em forma de U. Com a temperatura a subir a pique e a zona lombar a reclamar por esta altura o excesso de peso das mochilas (comida, roupas, tenda, saco-cama...), aproveitamos a companhia do jovem Rio Homem e das suas lagoas naturais para uns merecidos mergulhos, refrescando o corpo e lavando a alma nas suas águas límpidas e frescas.
Á medida que a grande muralha do vale ia ficando para trás (e os turistas também), um pequeno planalto extendia-se agora diante de nós. Acima das nossas cabeças, aves de rapina pairavam no céu, bandos de cabras montesas pulavam e saltavam nas arestas mais íngremes e inacessíveis da montanha, dezenas de garranos tasquinhavam o solo por entre as ruínas do antigo complexo mineiro, á procura de tufos de erva fresca. Após uma rápida inspecção ao local, ficamos com dúvidas sobre se deveríamos pernoitar ali. Apesar de haver água, duvidamos da qualidade da mesma. A pouca água existente encontrava-se demasiado estagnada e havia muito gado nas redondezas, fazendo das antigas minas de extracção de volfrâmio a sua casa de banho...! Com o sol a esconder-se por detrás do pico altaneiro dos Carris (1508m), chegamos por fim a um belo prado verdejante, bordeado por um fiozinho de água que corria ali mesmo ao lado. Era sem dúvida alguma o local ideal para montar o bivaque. Já com as lanternas e os frontais ligados, dividimos rapidamente as tarefas, e enquanto uns montavam as tendas, outros recolhiam lenha e preparavam o jantar.
Sentados á volta da fogueira, comendo o nosso jantar de montanha: massas para uns, feijoada para outros, questionamos sobre o que estariam a fazer naquele preciso momento os turistas que avistamos ao longo do dia. Muito provavelmente, estariam já instalados no conforto de um bom hotel, onde há Internet, TV por cabo, água quente e ar condicionado. Mas apesar do nosso alojamento não estar de todo incluído na restrita lista de hotéis de 5 estrelas, a verdade é que nessa noite não nos faltaram as estrelas lá em cima,  povoando um céu magnificamente negro e ao mesmo tempo cintilante, rasgado de quando em vez por uns quantos cometas, que tão depressa apareciam como desapareciam, sob o olhar incrédulo de um pequeno grupo de amigos, vivenciando aquela que terá sido, porventura, uma das noites mais inesquecíveis das suas vidas.


Fotografia © Pedro Afonso (Todos os direitos reservados)
Texto © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


terça-feira, 28 de setembro de 2021

A Serra dos Mortos

 

Dólmen de Meninas do Crasto, Serra da Aboboreira

Detalhes do registo fotográfico:
F/3.2
1/100 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Acarinhada e venerada pelo Homem desde há milénios, a Serra da Aboboreira (contraforte granítico localizado no extremo ocidental do maciço montanhoso Marão-Alvão) alberga um vasto e valiosíssimo espólio de monumentos megalíticos. No amplo planalto superior, em particular em redor das chãs e outeiros, encontramos uma enorme dispersão de diversos túmulos funerários. Os monumentos megalíticos que ali podemos encontrar remontam aos primórdios da civilização, e a sua construção não se limitava única e exclusivamente à prática de rituais sagrados, onde eram formalmente depositados os restos mortais dos defuntos. Segundo os arqueólogos, a construção dos túmulos em locais específicos e estratégicos, servia também para marcar o território e estabelecer fronteiras. De entre os vários monumentos megalíticos, os Dólmens são sem dúvida alguma aqueles que mais cativam a atenção do visitante. O esforço e o engenho despendido por parte das comunidades na construção de obras tão difíceis e complexas como os Dólmens, não só são reveladoras de um surpreendente e amplo entendimento, como também indiciam a existência de um forte espírito de coesão social entre os diferentes povos que em tempos idos habitaram as terras altas da Aboboreira.
Enquanto deambulamos pela imensidão do planalto serrano, ficamos com a sensação de regressar aos tempos de escola, assistindo in loco ao desenrolar da história de vida destas comunidades. Desde logo, a desoladora paisagem que se estende ao longo de quilómetros e quilómetros de solos esqueléticos, não será certamente a mesma que o inocente e assustado olhar dos primeiros Homo Sapiens observaram. Ela, por si só, conta-nos a história da lenta transformação das densas florestas primitivas de carvalhos numa paisagem aberta devido ao desenvolvimento da actividade agro-pastoril. E foi precisamente nesse estéril ventre granítico onde o Homem tentou, ao longo das eras, retirar o seu parco sustento, numa luta por vezes inglória pela sua própria sobrevivência.
Passados mais de 4 mil anos após o surgimento dos primeiros povoados, os montes aplanados da Aboboreira continuam a sentir o carinho e a veneração do Homem. Ao longo das espraiadas encostas da montanha, alguns pequenos aldeamentos vão salpicando em tons de verde o remendado manto de ossos e chagas que a severa paisagem expõe. Mas é precisamente lá em cima, onde a Aboboreira mais se aproxima do céu, que a ancestral ligação do Homem com a Montanha ganha maior amplitude e significado. Onde cada amontoado de pedras adquire uma estranha, mas ao mesmo tempo solene condição humana, e onde os defuntos sussurram-nos  aos ouvidos confidências e segredos que não podem, nem devem ser revelados.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


terça-feira, 14 de setembro de 2021

Nos Andes Peruanos

 

Vale Superior do Rio Conho, Serra do Gerês

Detalhes do registo fotográfico:
F/7.1
1/160 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Ainda antes da alvorada, estávamos já acordados e fora dos sacos-cama. Fomos de imediato ver se as roupas haviam secado, depois do dilúvio do dia anterior. E para nossa total surpresa e espanto, elas estavam completamente secas! Pena o forte odor a fumo que entretanto emanava em cada uma das peças de roupa... Paciência. Defumados... mas secos! Depois de prepararmos um delicioso pequeno-almoço: um café bem quentinho e devidamente acompanhado por umas torradas bem amanteigadas e acabadinhas de sair do fogareiro, saímos do abrigo e inspiramos o ar frio e limpo da manhã. Queremos aproveitar os primeiros instantes de luz do dia para fotografar, e cada um por si, caminhando de um canto para o outro, procura os melhores ângulos, o melhor enquadramento. Um dos nossos amigos afasta-se do grupo e decide acompanhar o curso de um pequeno ribeiro. <<Malta, venham cá!...>>. Assim que chegamos junto dele, ficamos completamente esmagados pelo cenário que tínhamos aos nossos pés: a montanha, subitamente, rasgava-se ao meio e duas escarpas caiam a pique, cavando um profundo abismo, onde um estreito corredor permitia a passagem das tumultuosas águas que, despenhando-se ao longo da encosta da montanha, embatiam furiosamente nos pedregulhos do desfiladeiro. A magnificência daquilo que os nossos olhos abarcavam impunha um longo e solene período de silêncio, quebrado apenas pelo som mecânico do obturador das máquinas fotográficas, que não paravam de disparar, de uma forma inclemente e compulsiva. Num tom algo brincalhão, houve quem não conseguisse conter todo aquele entusiasmo, e exclamou: <<Epá! Até parece que estamos nos Andes Peruanos! E se a malta fosse por aí abaixo à procura de uma qualquer cidade inca perdida? Hum? Quem sabe?...>> Sorrimos uns para os outros e regressamos ao abrigo para recolher as mochilas e arrepiar caminho.
Com o sol a esconder-se por detrás das nuvens, uma neblina fina e espessa lambia as encostas da montanha, cobrindo por breves momentos os vales e picos á sua volta. Embrenhados no meio da neblina, chegamos ao bucólico Prado dos Bicos Altos. A ideia era não apenas desfrutar do prado em si, como também encetar a ambicionada trepadela rumo às agulhas dos Bicos Altos (1094m). Tá bonito... bicos, agulhas, cumeada.... nem vê-los! Pretendíamos esperar um pouco mais, para ver se a neblina se dissipava, mas decidimos prosseguir a marcha. Tínhamos ainda um longo e árduo caminho pela frente: vencer um forte declive de cerca de 500m, para de seguida voltar a subir outro tanto até chegarmos à aldeia de Fafião, de onde havíamos partido no dia anterior. É que por terras fafiotas não há muito por onde escolher. Todo o montanheiro sabe que por estas bandas só há duas opcções: ou se sobe, ou se desce! Fatigados, pousamos finalmente as mochilas e fomos beber água da fonte. Enquanto reabastecíamos os cantis, alguém comentou que <<ao Domingo, num restaurante aqui perto, costumam servir churrasco de boi...>>. Seguiu-se uma breve troca de olhares. Talvez não fosse má ideia manter os fogareiros e os enlatados no interior das mochilas...


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


terça-feira, 7 de setembro de 2021

O farol da Rocalva


Prado da Rocalva, Serra do Gerês

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.6
1/1000 seg.
5 mm
ISO-64
Câmara Casio Computer CO. LTD.


As previsões meteorológicas para o fim-de-semana não eram de todo as mais animadoras. Estava prevista chuva, por vezes intensa. Tínhamos planeado uma jornada de travessia pelo maciço central da Serra do Gerês. Caminhar sobre chuva não costuma fazer parte dos nossos planos. Mesmo assim, arriscamos...
O caminho que havíamos inicialmente escolhido não era de todo o mais aconselhável. O trilho extendia-se a sensivelmente meia encosta da montanha, mas o carreiro mal-amanhado e bastante sinuoso, escondia alguns perigos. Em certos locais chegava a ser difícil ver o próprio caminho, com algumas passagens delicadas e onde uma eventual queda poderia provocar um acidente grave. Prestando sempre muita atenção ao longo do caminho, dirigimo-nos ao sempre aprazível Prado da Touça. Aproveitamos as comodidades do prado para almoçar, dispondo o nosso farnel sobre a rústica mesa de granito, tendo como companhia uns veneráveis carvalhos centenários. Ainda mal tínhamos terminado o repasto, e já era altura de colocar rapidamente as mochilas às costas, ou não tivéssemos nós acabado de levar com as primeiras bátegas de chuva do dia. E bem grossas por sinal! Apesar do constante agravar do estado do tempo, o ânimo dos meus companheiros permanecia inabalável. Estávamos a percorrer um dos mais belos trechos do percurso, esculpido ao longo do Vale do Rio da Touça. E se cá em baixo o nosso olhar detinha-se perante a beleza das inúmeras lagoas naturais esculpidas pelo jovem Rio da Touça, lá em cima, nos altos píncaros serranos, a inexpugnável parede de Porta Ruivas (1290m) impunha-se com toda a sua força bruta e esplendor.
Com o cansaço a fazer-se sentir e a roupa bem encharcadinha, terminamos a penosa subida da Encosta da Mourisca, e uma sensação de inquietude apoderou-se do grupo. Sentimos que íamos na direcção errada. Paramos. Retiramos a bússola e a carta militar.  Debatemos a situação. De facto, tínhamos efectuado um pequeno desvio. Decidimos recuar um pouco. A confirmação de que estávamos finalmente no trilho certo veio pouco tempo depois com o avistamento do farol da Rocalva (1347m). Com a sua formação rochosa muito peculiar, o domo granítico da Rocalva é simultâneamente uma das fragas mais conhecidas e acarinhadas das montanhas do Gerês. Com o ambiente finalmente desanuviado (refiro-me ao psicológico, já em relação ao meteorológico... minha Nossa Senhora...  que dilúvio!!!), as últimas centenas de metros mais pareciam um descontraído passeio pelo campo, onde ainda tivemos a leveza de espírito para sacar da máquina fotográfica e tirar algumas fotografias (a foto que acompanha o texto foi obtida precisamente nessa ocasião).
Mas o melhor ainda estava para vir. Assim que chegamos ao Prado da Rocalva e entramos para o abrigo... bingo!!! O abrigo encontrava-se não apenas limpo e seco, como ainda por cima tinha lenha empilhada! Palavras para quê? Toca acender a fogueira, retirar a roupa molhada, preparar o jantar e saborear um delicioso chá quente, e finalmente saltar para o interior de um saco-cama quentinho, adormecendo embalados pelo som do crepitar da lenha dentro do abrigo, e do barulho incessante do vento e das grossas bátegas de chuva, que caíam de forma inclemente sobre o frágil, mas precioso telhado de zinco do abrigo.


Fotografia © Filipe Mostardinha (Todos os direitos reservados)
Texto © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Uma conversa inesperada


Mosaico agrícola no Vale da Ribeira de Arnal, Serra do Alvão

Detalhes do registo fotográfico:
F/3.6
1/250 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


O Parque Natural do Alvão, situado na região oeste de Trás-os-Montes, é um pequeno enclave de cascatas e desfiladeiros. Nesta área protegida de reduzidas dimensões (com pouco mais de 7000 hectares), o visitante irá deparar-se com uma surpreendente diversidade paisagística. Considerada por muitos como a principal razão para a criação do parque, as quedas de água das Fisgas de Ermelo são o ex-líbris natural da região. Ao longo de sensivelmente 300 metros, as tumultuosas águas do Rio Ôlo precipitam-se sobre uma impressionante parede de rochas arqueadas e fracturadas, originando aquela que é considerada por muitos como a maior cascata em escada da Europa.
No entanto, há um outro Alvão a descobrir. Um Alvão mais humano, composto por homens e mulheres que juntos moldaram a severa paisagem e que diariamente retiram das entranhas da terra o seu sustento. É um prazer acompanhar as margens domesticadas da Ribeira de Arnal, bordeada por belíssimos carvalhos, ponteada aqui, e acolá, por velhos moinhos que já não moem os grãos de centeio e milho. Uma autêntica manta verde de retalhos prolonga-se ao longo do vale, e em cada pedaço de terra, um homem cava uma leira para semear batatas, uma mulher ceifa um molho de erva, enquanto manadas de vacas maronesas vão pastando, de forma livre e pachorrenta, ao longo do dia. No interior das povoações ainda é possível observar um punhado de casas rurais tradicionais, de dimensões modestas e escassas aberturas, alicerçadas com granito da região e revestidas por telhados de laje de ardósia.
Ouve-se um pequeno tilintar, lá para cima, para os ermos da serra. A curiosidade é tanta que viro as costas á aldeia e, de pé posto, subo a pedregosa encosta da montanha. Tlimmm... Tlimmm... Tlimmm... e ao fim de um bom bocado ainda não consigo descortinar com precisão o local de onde vem o misterioso som! Ando um pouco mais. Finalmente vislumbro um vulto negro encostado a uma rocha, imóvel. Quando dá pela minha presença, levanta-se, e, calmamente, dirige-se ao meu encontro. De capote sobre as costas, uma boina já gasta pelas traças e de cajado na mão, acena-me um bom dia, como a perguntar o que raio ando eu ali a fazer.  Acabamos por conversar um pouco. Recorda saudosos tempos em que foi jovem e emigrante. Desabafa algumas das amarguras da vida de um pastor e queixa-se da solidão, a sua companhia do dia-a-dia. Inesperadamente, a conversa é interrompida. Os cães começam a ladrar, o gado agita-se e ouvem-se tumultos. Num ápice, o pastor desata a correr que nem um doido em direcção ao gado, gritando: <<Oh diabo! Tu queres ver que anda aqui lobo!...>>.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)