Fotografias & Histórias de Montanha

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Nos Andes Peruanos

 

Vale Superior do Rio Conho, Serra do Gerês

Detalhes do registo fotográfico:
F/7.1
1/160 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Ainda antes da alvorada, estávamos já acordados e fora dos sacos-cama. Fomos de imediato ver se as roupas haviam secado, depois do dilúvio do dia anterior. E para nossa total surpresa e espanto, elas estavam completamente secas! Pena o forte odor a fumo que entretanto emanava em cada uma das peças de roupa... Paciência. Defumados... mas secos! Depois de prepararmos um delicioso pequeno-almoço: um café bem quentinho e devidamente acompanhado por umas torradas bem amanteigadas e acabadinhas de sair do fogareiro, saímos do abrigo e inspiramos o ar frio e limpo da manhã. Queremos aproveitar os primeiros instantes de luz do dia para fotografar, e cada um por si, caminhando de um canto para o outro, procura os melhores ângulos, o melhor enquadramento. Um dos nossos amigos afasta-se do grupo e decide acompanhar o curso de um pequeno ribeiro. <<Malta, venham cá!...>>. Assim que chegamos junto dele, ficamos completamente esmagados pelo cenário que tínhamos aos nossos pés: a montanha, subitamente, rasgava-se ao meio e duas escarpas caiam a pique, cavando um profundo abismo, onde um estreito corredor permitia a passagem das tumultuosas águas que, despenhando-se ao longo da encosta da montanha, embatiam furiosamente nos pedregulhos do desfiladeiro. A magnificência daquilo que os nossos olhos abarcavam impunha um longo e solene período de silêncio, quebrado apenas pelo som mecânico do obturador das máquinas fotográficas, que não paravam de disparar, de uma forma inclemente e compulsiva. Num tom algo brincalhão, houve quem não conseguisse conter todo aquele entusiasmo, e exclamou: <<Epá! Até parece que estamos nos Andes Peruanos! E se a malta fosse por aí abaixo à procura de uma qualquer cidade inca perdida? Hum? Quem sabe?...>> Sorrimos uns para os outros e regressamos ao abrigo para recolher as mochilas e arrepiar caminho.
Com o sol a esconder-se por detrás das nuvens, uma neblina fina e espessa lambia as encostas da montanha, cobrindo por breves momentos os vales e picos á sua volta. Embrenhados no meio da neblina, chegamos ao bucólico Prado dos Bicos Altos. A ideia era não apenas desfrutar do prado em si, como também encetar a ambicionada trepadela rumo às agulhas dos Bicos Altos (1094m). Tá bonito... bicos, agulhas, cumeada.... nem vê-los! Pretendíamos esperar um pouco mais, para ver se a neblina se dissipava, mas decidimos prosseguir a marcha. Tínhamos ainda um longo e árduo caminho pela frente: vencer um forte declive de cerca de 500m, para de seguida voltar a subir outro tanto até chegarmos à aldeia de Fafião, de onde havíamos partido no dia anterior. É que por terras fafiotas não há muito por onde escolher. Todo o montanheiro sabe que por estas bandas só há duas opcções: ou se sobe, ou se desce! Fatigados, pousamos finalmente as mochilas e fomos beber água da fonte. Enquanto reabastecíamos os cantis, alguém comentou que <<ao Domingo, num restaurante aqui perto, costumam servir churrasco de boi...>>. Seguiu-se uma breve troca de olhares. Talvez não fosse má ideia manter os fogareiros e os enlatados no interior das mochilas...


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


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