Fotografias & Histórias de Montanha

terça-feira, 28 de setembro de 2021

A Serra dos Mortos

 

Dólmen de Meninas do Crasto, Serra da Aboboreira

Detalhes do registo fotográfico:
F/3.2
1/100 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Acarinhada e venerada pelo Homem desde há milénios, a Serra da Aboboreira (contraforte granítico localizado no extremo ocidental do maciço montanhoso Marão-Alvão) alberga um vasto e valiosíssimo espólio de monumentos megalíticos. No amplo planalto superior, em particular em redor das chãs e outeiros, encontramos uma enorme dispersão de diversos túmulos funerários. Os monumentos megalíticos que ali podemos encontrar remontam aos primórdios da civilização, e a sua construção não se limitava única e exclusivamente à prática de rituais sagrados, onde eram formalmente depositados os restos mortais dos defuntos. Segundo os arqueólogos, a construção dos túmulos em locais específicos e estratégicos, servia também para marcar o território e estabelecer fronteiras. De entre os vários monumentos megalíticos, os Dólmens são sem dúvida alguma aqueles que mais cativam a atenção do visitante. O esforço e o engenho despendido por parte das comunidades na construção de obras tão difíceis e complexas como os Dólmens, não só são reveladoras de um surpreendente e amplo entendimento, como também indiciam a existência de um forte espírito de coesão social entre os diferentes povos que em tempos idos habitaram as terras altas da Aboboreira.
Enquanto deambulamos pela imensidão do planalto serrano, ficamos com a sensação de regressar aos tempos de escola, assistindo in loco ao desenrolar da história de vida destas comunidades. Desde logo, a desoladora paisagem que se estende ao longo de quilómetros e quilómetros de solos esqueléticos, não será certamente a mesma que o inocente e assustado olhar dos primeiros Homo Sapiens observaram. Ela, por si só, conta-nos a história da lenta transformação das densas florestas primitivas de carvalhos numa paisagem aberta devido ao desenvolvimento da actividade agro-pastoril. E foi precisamente nesse estéril ventre granítico onde o Homem tentou, ao longo das eras, retirar o seu parco sustento, numa luta por vezes inglória pela sua própria sobrevivência.
Passados mais de 4 mil anos após o surgimento dos primeiros povoados, os montes aplanados da Aboboreira continuam a sentir o carinho e a veneração do Homem. Ao longo das espraiadas encostas da montanha, alguns pequenos aldeamentos vão salpicando em tons de verde o remendado manto de ossos e chagas que a severa paisagem expõe. Mas é precisamente lá em cima, onde a Aboboreira mais se aproxima do céu, que a ancestral ligação do Homem com a Montanha ganha maior amplitude e significado. Onde cada amontoado de pedras adquire uma estranha, mas ao mesmo tempo solene condição humana, e onde os defuntos sussurram-nos  aos ouvidos confidências e segredos que não podem, nem devem ser revelados.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


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