Prado da Rocalva, Serra do Gerês
Detalhes do registo fotográfico:
F/2.6
1/1000 seg.
5 mm
ISO-64
Câmara Casio Computer CO. LTD.
As previsões meteorológicas para o fim-de-semana não eram de todo as mais animadoras. Estava prevista chuva, por vezes intensa. Tínhamos planeado uma jornada de travessia pelo maciço central da Serra do Gerês. Caminhar sobre chuva não costuma fazer parte dos nossos planos. Mesmo assim, arriscamos...
O caminho que havíamos inicialmente escolhido não era de todo o mais aconselhável. O trilho extendia-se a sensivelmente meia encosta da montanha, mas o carreiro mal-amanhado e bastante sinuoso, escondia alguns perigos. Em certos locais chegava a ser difícil ver o próprio caminho, com algumas passagens delicadas e onde uma eventual queda poderia provocar um acidente grave. Prestando sempre muita atenção ao longo do caminho, dirigimo-nos ao sempre aprazível Prado da Touça. Aproveitamos as comodidades do prado para almoçar, dispondo o nosso farnel sobre a rústica mesa de granito, tendo como companhia uns veneráveis carvalhos centenários. Ainda mal tínhamos terminado o repasto, e já era altura de colocar rapidamente as mochilas às costas, ou não tivéssemos nós acabado de levar com as primeiras bátegas de chuva do dia. E bem grossas por sinal! Apesar do constante agravar do estado do tempo, o ânimo dos meus companheiros permanecia inabalável. Estávamos a percorrer um dos mais belos trechos do percurso, esculpido ao longo do Vale do Rio da Touça. E se cá em baixo o nosso olhar detinha-se perante a beleza das inúmeras lagoas naturais esculpidas pelo jovem Rio da Touça, lá em cima, nos altos píncaros serranos, a inexpugnável parede de Porta Ruivas (1290m) impunha-se com toda a sua força bruta e esplendor.
Com o cansaço a fazer-se sentir e a roupa bem encharcadinha, terminamos a penosa subida da Encosta da Mourisca, e uma sensação de inquietude apoderou-se do grupo. Sentimos que íamos na direcção errada. Paramos. Retiramos a bússola e a carta militar. Debatemos a situação. De facto, tínhamos efectuado um pequeno desvio. Decidimos recuar um pouco. A confirmação de que estávamos finalmente no trilho certo veio pouco tempo depois com o avistamento do farol da Rocalva (1347m). Com a sua formação rochosa muito peculiar, o domo granítico da Rocalva é simultâneamente uma das fragas mais conhecidas e acarinhadas das montanhas do Gerês. Com o ambiente finalmente desanuviado (refiro-me ao psicológico, já em relação ao meteorológico... minha Nossa Senhora... que dilúvio!!!), as últimas centenas de metros mais pareciam um descontraído passeio pelo campo, onde ainda tivemos a leveza de espírito para sacar da máquina fotográfica e tirar algumas fotografias (a foto que acompanha o texto foi obtida precisamente nessa ocasião).
Mas o melhor ainda estava para vir. Assim que chegamos ao Prado da Rocalva e entramos para o abrigo... bingo!!! O abrigo encontrava-se não apenas limpo e seco, como ainda por cima tinha lenha empilhada! Palavras para quê? Toca acender a fogueira, retirar a roupa molhada, preparar o jantar e saborear um delicioso chá quente, e finalmente saltar para o interior de um saco-cama quentinho, adormecendo embalados pelo som do crepitar da lenha dentro do abrigo, e do barulho incessante do vento e das grossas bátegas de chuva, que caíam de forma inclemente sobre o frágil, mas precioso telhado de zinco do abrigo.
Fotografia © Filipe Mostardinha (Todos os direitos reservados)
Texto © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)

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