Fotografias & Histórias de Montanha

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Uma conversa inesperada


Mosaico agrícola no Vale da Ribeira de Arnal, Serra do Alvão

Detalhes do registo fotográfico:
F/3.6
1/250 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


O Parque Natural do Alvão, situado na região oeste de Trás-os-Montes, é um pequeno enclave de cascatas e desfiladeiros. Nesta área protegida de reduzidas dimensões (com pouco mais de 7000 hectares), o visitante irá deparar-se com uma surpreendente diversidade paisagística. Considerada por muitos como a principal razão para a criação do parque, as quedas de água das Fisgas de Ermelo são o ex-líbris natural da região. Ao longo de sensivelmente 300 metros, as tumultuosas águas do Rio Ôlo precipitam-se sobre uma impressionante parede de rochas arqueadas e fracturadas, originando aquela que é considerada por muitos como a maior cascata em escada da Europa.
No entanto, há um outro Alvão a descobrir. Um Alvão mais humano, composto por homens e mulheres que juntos moldaram a severa paisagem e que diariamente retiram das entranhas da terra o seu sustento. É um prazer acompanhar as margens domesticadas da Ribeira de Arnal, bordeada por belíssimos carvalhos, ponteada aqui, e acolá, por velhos moinhos que já não moem os grãos de centeio e milho. Uma autêntica manta verde de retalhos prolonga-se ao longo do vale, e em cada pedaço de terra, um homem cava uma leira para semear batatas, uma mulher ceifa um molho de erva, enquanto manadas de vacas maronesas vão pastando, de forma livre e pachorrenta, ao longo do dia. No interior das povoações ainda é possível observar um punhado de casas rurais tradicionais, de dimensões modestas e escassas aberturas, alicerçadas com granito da região e revestidas por telhados de laje de ardósia.
Ouve-se um pequeno tilintar, lá para cima, para os ermos da serra. A curiosidade é tanta que viro as costas á aldeia e, de pé posto, subo a pedregosa encosta da montanha. Tlimmm... Tlimmm... Tlimmm... e ao fim de um bom bocado ainda não consigo descortinar com precisão o local de onde vem o misterioso som! Ando um pouco mais. Finalmente vislumbro um vulto negro encostado a uma rocha, imóvel. Quando dá pela minha presença, levanta-se, e, calmamente, dirige-se ao meu encontro. De capote sobre as costas, uma boina já gasta pelas traças e de cajado na mão, acena-me um bom dia, como a perguntar o que raio ando eu ali a fazer.  Acabamos por conversar um pouco. Recorda saudosos tempos em que foi jovem e emigrante. Desabafa algumas das amarguras da vida de um pastor e queixa-se da solidão, a sua companhia do dia-a-dia. Inesperadamente, a conversa é interrompida. Os cães começam a ladrar, o gado agita-se e ouvem-se tumultos. Num ápice, o pastor desata a correr que nem um doido em direcção ao gado, gritando: <<Oh diabo! Tu queres ver que anda aqui lobo!...>>.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


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