Fotografias & Histórias de Montanha

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Nas asas da aurora

 

Espelho de água na Albufeira do Alto Cávado, Barroso

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.8
1/100 seg
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Saio da tenda para ver como está o tempo. Está frio, apesar de estarmos em pleno mês de Agosto. Tínhamos bivacado junto a uma albufeira, muito próximos do lençol de água. Apesar do frio, não está vento, e o espelho de água na albufeira parece estar perfeito. Volto á tenda para ir buscar a máquina fotográfica. Mas primeiro quero acender o fogareiro e preparar um delicioso café da manhã! Com o estômago aconchegado, dirijo-me para um local que tinha previamente estudado no dia anterior. Com um pouco de sorte, talvez consiga captar através da lente da máquina fotográfica um dos momentos mágicos do dia: o nascer do sol. Firme e hirto, aguardo que a noite se desvaneça e o astro rei faça a sua entrada triunfal.
Ouço o fecho éclair de uma outra tenda abrir. Um dos nossos amigos decide juntar-se a mim. <<Porra... está frio!...>>, disse ele. Estendo a mão e ofereço-lhe a minha chávena de café. Nesse preciso instante rompia de forma fulgurante uma alba jovial e purpúrea. Já conseguíamos vislumbrar a silhueta das montanhas que nos circundavam e as inúmeras manchas de carvalhos que polvilham os montes da região. A negridão iluminava-se e o dia começava lentamente a escorrer nas asas da aurora. A placidez do céu, o ar sereno, e a luz diáfana, mais não eram que sinais de um prometedor e fecundo dia de montanha. Assim foi.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

"Crac... Crac..."


Miradouro da Senhora das Treburas, Barroso

Detalhes do registo fotográfico:
F/8
1/500 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Ainda de madrugada, o despertador toca. Saio da cama, visto um casaco, abro a porta e saio para dar uma pequena volta. A aldeia de Penedones encontra-se coberta por um admirável manto branco. Tinha caído um forte nevão durante a noite. Sabia de antemão que as previsões meteorológicas apontavam para a possibilidade de queda de neve, mas não esperava que a cota baixasse de forma considerável e a neve caísse com esta intensidade. Entro no pequeno alojamento de turismo rural e preparo meticulosamente a mochila. O nevão poderia por em causa o plano que tinha delineado para este segundo e último dia da minha travessia em solitário pela região do Barroso. Apesar de não ser a primeira vez que caminharia sobre neve, teria que ter o máximo de cuidado para não correr riscos desnecessários.
Enquanto percorro as ruelas da fantasmagórica aldeia, fico com a ideia de que sou o único que por aqui anda, embora algumas pessoas tenham já se levantado, a julgar pelo fumo que lentamente vejo sair das chaminés de algumas casas. Ainda antes de sair do aldeamento, devolvo o olhar para o modesto alojamento que tão bem me acolheu no dia anterior e sinto pela última vez a quentura e o aconchego das suas paredes, em pleno contraste com o ar gélido e o vento tenebroso do exterior. Deixo as lamúrias para trás e entro na montanha propriamente dita. Apesar da acumulação de neve ser cada vez maior, a progressão era feita de uma forma relativamente rápida e segura, sendo cada vez mais audível o crac... crac... dos meus passos na neve gelada. Quando estava a uns escassos metros de alcançar o colo de montanha do Boqueiro do Avelar, o vento começa a soprar com ainda mais intensidade, arrastando consigo alguma neve. O incómodo era tanto que decido abrigar-me provisoriamente no interior de um pinhal, onde, e vá-se lá saber o porquê, aproveito a pausa para erguer um pequeno boneco de neve!... O vento parece querer dar tréguas e as nuvens começam lentamente a dissipar-se. Com a melhoria do estado do tempo pude finalmente desfrutar de brancas e desafogadas vistas sobre a região do Barroso, em particular sobre o imenso Vale do Alto Rabagão. Na planura do vale estendem-se agora as silenciosas águas de um jovem rio de montanha. Outrora lírico e cantante, o leito do Rio Rabagão é nos dias de hoje apenas (mais) um gigantesco lago de águas amordaçadas e estagnadas, sem vida, sem canto nem encanto.
Paulatinamente, vou-me aproximando da vila de Montalegre, mas não sem antes passar pelo sempre aprazível parque de lazer da Corujeira. Em anteriores visitas estivais, acabava invariavelmente por dormitar uma pequena sesta, deitado na erva verde e fresca. A sensação de o ver branco como neste dia foi verdadeiramente estranha... mas ao mesmo tempo maravilhosa! O meu olhar detém-se para norte. Vejo uma enorme massa de nuvens carregadas envolvendo a área onde se ergue a imponente Serra do Larouco. O vento volta a soprar com bastante intensidade e a colossal massa de nuvens vai-se aproximando cada vez mais da pequena vila transmontana. Dentro em breve voltaria a nevar. Desço e procuro abrigo nas quentes e acolhedoras paredes de uma casa barrosã.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Subida aos Deus Larouco


Vertente sudeste da Serra do Larouco

Detalhes do registo fotográfico:
F/6.3
1/400 seg.
22 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Segundo os investigadores, a origem do topónimo Larouco deriva de um antigo culto pagão associado ao Deus Larouco, uma divindade do panteão Celta, também conhecido como deus do trovão, da metalurgia e da fertilidade. Apesar do culto pagão ter sido substituído pelo cristão, a verdade é que ainda há relativamente pouco tempo atrás, jovens dos dois lados da raia reuniam-se no cume da montanha para homenagear o Deus Larouco, numa tentativa de avivar a memória de uma cultura ancestral, intrinsecamente ligada à Natureza e fortemente enraizada nos usos e costumes das gentes locais.
Ainda mal acabávamos de dar os primeiros passos, e já pressentíamos que não podíamos ter escolhido uma melhor altura para a subida ao cume do Larouco (1525m). O dia apresentava-se soalheiro, mas no céu pairavam nuvens carregadas, tornando o cenário mais tenebroso e espectacular. Os montes do Larouco voltavam a ganhar vida, despontando do longo e rigoroso inverno barrosão. A Primavera chegara com uma pujança invejável, e a erva quase que parecia engolir os montes. As encostas da montanha encontravam-se densamente cobertas por erva viçosa e espessa, e as flores carregavam os montes de cor. As manchas de urze a carqueja encontravam-se em plena floração, e cada uma delas estendia o seu manto, salpicando a paisagem com o seu colorido.
Depois de uma árdua subida (decidimos abandonar o confortável caminho florestal e subir em corta mato a íngreme vertente sudeste da serra), atingimos o cume da montanha. E mesmo aqui, já bem perto da cota dos 1500m, o jardim do éden continuava, com pequenas flores silvestres a atapetar o solo. O marco geodésico do Larouco estava ali mesmo, a uns escassos metros, mas as vistas, essas, prolongavam-se para longe, bem longe! Do cume do Larouco todas as outras montanhas parecem perder toda a sua imponência e altivez. Ourigo, Barroso, Cabreira, Gerês, Soajo e Peneda, surpreendentes, misteriosas, selvagens e bravias quando caminhamos no seu seio materno, do topo do Larouco não passam de pequenos e enfadonhos montes, prostrados diante de um perfil austero e dominador: o Larouco.
A descida acabou por ser efectuada num bom ritmo, e a aldeia de Gralhas ali estava para nos acolher, preguiçosamente estendida no perfumado e florido planalto barrosão. Quando fomos a dar conta, estávamos já a percorrer as vielas da aldeia, parando aqui e acolá para os já habituais 2 dedos de conversa com as gentes locais. E que dizer daquelas bejecas geladinhas, atenciosamente servidas no café local e devidamente acompanhadas com tremoços e amendoins salgados? Souberam-nos divinamente! Um final de dia perfeito, em mais uma jornada pelas místicas terras barrosãs.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


quinta-feira, 14 de outubro de 2021

A lenda da Serra da Mourela

 

Campina serrana (mosaico agro-silvo-pastoril), Serra da Mourela

Detalhes do registo fotográfico:
F/5.6
1/400 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


"Conta-se que, quando os mouros foram expulsos pelos cristãos das terras do norte, havia uma mulher moura que estava grávida e que teve as dores de parto no momento da fuga. Escondeu-se, por isso, numa gruta para puder ter o filho. Todos os mouros foram embora, mas ela ficou naquela gruta para criar o filho, e o povo diz que durante muito tempo se ouviu a moura a entoar bonitas canções de embalar. A gruta ficou assim conhecida como a Pedra da Moura, e a serra onde ela está situada é a Serra da Mourela. Fica entre as aldeias de Pitões das Júnias e Tourém, no concelho de Montalegre."

Desligo o computador e já não quero saber de mais nada. Estava lançado o mote para mais uma incursão ao sempre belo (e místico) Barroso. Porém, a verdade é que acabei por não encontrar a gruta da Pedra da Moura. Mas como poderia eu encontrá-la, quando nem sequer me dei ao trabalho de a procurar! Não tinha propriamente um plano definido, um trilho a seguir. E tão pouco me lembrei de levar a carta militar, quanto mais um desses dispositivos electrónicos com sistema GPS integrado. Caso não encontrasse a benfazeja gruta, paciência. Seja como for, o que tinha em mente e o que realmente pretendia, era pura e simplesmente voltar a caminhar na montanha, sentir uma vez mais o aconchego do seu abraço, depois de um longo e forçado período de ausência.
Contrariamente ao que é usual, em vez de atirar-me freneticamente ao encontro da ansiada aventura, desta vez optei por caminhar de forma serena e totalmente descomprometida, vadiando fortuitamente por entre a imensidão dos céus e das montanhas. E foi assim, sem nada pedir e quando menos esperava, que a Mourela, quente e desanuviada, veio ter comigo. E então pude finalmente tocá-la na fragilidade dos seus campos de algodão, enterrar-me até aos tornozelos na terra húmida e balofa das suas turfeiras, ouvindo o sussurro do vento que, ao passar de mansinho nas aplanadas encostas da montanha, ia delicadamente penteando as viçosas searas da campina serrana... Assim é a Mourela. Uma serra que nos faz sonhar, acordados! Delírios de um eterno andarilho na mais pura e solene entrega à Natureza, à vida ao ar livre? Com certeza que sim!!! Ou será que esses supostos delírios mais não são que a vivência de um sonho tornado realidade? Um sonho que abrolha e floresce a cada nova incursão a esse lugar misterioso, divino, e infinitamente belo: a Montanha.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

A grande muralha do Vale do Rio Homem

 

Encosta do Sol, Serra do Gerês

Detalhes do registo fotográfico:
F/4
1/400seg.
7mm
ISO-100
Câmara Canon Power Shot A630


Agosto. O mês em que rebanhos de turistas furiosos invadem os ermos mais inóspitos das penedias geresianas. Nos dias mais quentes, intermináveis filas de carros congestionam as estradas de acesso às principais atracções banhistas da região. Apesar do excesso de gente na montanha, pretendíamos, mesmo assim, colocar em marcha um plano que havíamos ambicionado há já muito tempo: subir o grande Vale do Rio Homem e pernoitar nas míticas Minas dos Carris. Deixando a fronteira da Portela do Homem para trás, dirigimo-nos à incontornável Cascata de S. Miguel. Como o habitual arraial de verão estava já montado, passamos ao lado e enveredamos por aquele que se tornou um dos trilhos mais fascinantes e ao mesmo tempo irritantes em toda a Serra do Gerês. Do antigo caminho mineiro já só resta um longo e penoso amontoado de pedras soltas, esculpido ao longo do vale, sobranceiro ao Rio Homem. Formado há milhares de anos, o Vale Glaciar do Rio Homem é um verdadeiro tesouro natural e paisagístico. Por este vale passou em tempos um antigo glaciar, formado por enormes massas de gelo, que devido á gravidade, deslocavam-se de forma lenta e progressiva, moldando a superfície da montanha, formando o característico vale em forma de U. Com a temperatura a subir a pique e a zona lombar a reclamar por esta altura o excesso de peso das mochilas (comida, roupas, tenda, saco-cama...), aproveitamos a companhia do jovem Rio Homem e das suas lagoas naturais para uns merecidos mergulhos, refrescando o corpo e lavando a alma nas suas águas límpidas e frescas.
Á medida que a grande muralha do vale ia ficando para trás (e os turistas também), um pequeno planalto extendia-se agora diante de nós. Acima das nossas cabeças, aves de rapina pairavam no céu, bandos de cabras montesas pulavam e saltavam nas arestas mais íngremes e inacessíveis da montanha, dezenas de garranos tasquinhavam o solo por entre as ruínas do antigo complexo mineiro, á procura de tufos de erva fresca. Após uma rápida inspecção ao local, ficamos com dúvidas sobre se deveríamos pernoitar ali. Apesar de haver água, duvidamos da qualidade da mesma. A pouca água existente encontrava-se demasiado estagnada e havia muito gado nas redondezas, fazendo das antigas minas de extracção de volfrâmio a sua casa de banho...! Com o sol a esconder-se por detrás do pico altaneiro dos Carris (1508m), chegamos por fim a um belo prado verdejante, bordeado por um fiozinho de água que corria ali mesmo ao lado. Era sem dúvida alguma o local ideal para montar o bivaque. Já com as lanternas e os frontais ligados, dividimos rapidamente as tarefas, e enquanto uns montavam as tendas, outros recolhiam lenha e preparavam o jantar.
Sentados á volta da fogueira, comendo o nosso jantar de montanha: massas para uns, feijoada para outros, questionamos sobre o que estariam a fazer naquele preciso momento os turistas que avistamos ao longo do dia. Muito provavelmente, estariam já instalados no conforto de um bom hotel, onde há Internet, TV por cabo, água quente e ar condicionado. Mas apesar do nosso alojamento não estar de todo incluído na restrita lista de hotéis de 5 estrelas, a verdade é que nessa noite não nos faltaram as estrelas lá em cima,  povoando um céu magnificamente negro e ao mesmo tempo cintilante, rasgado de quando em vez por uns quantos cometas, que tão depressa apareciam como desapareciam, sob o olhar incrédulo de um pequeno grupo de amigos, vivenciando aquela que terá sido, porventura, uma das noites mais inesquecíveis das suas vidas.


Fotografia © Pedro Afonso (Todos os direitos reservados)
Texto © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


terça-feira, 28 de setembro de 2021

A Serra dos Mortos

 

Dólmen de Meninas do Crasto, Serra da Aboboreira

Detalhes do registo fotográfico:
F/3.2
1/100 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Acarinhada e venerada pelo Homem desde há milénios, a Serra da Aboboreira (contraforte granítico localizado no extremo ocidental do maciço montanhoso Marão-Alvão) alberga um vasto e valiosíssimo espólio de monumentos megalíticos. No amplo planalto superior, em particular em redor das chãs e outeiros, encontramos uma enorme dispersão de diversos túmulos funerários. Os monumentos megalíticos que ali podemos encontrar remontam aos primórdios da civilização, e a sua construção não se limitava única e exclusivamente à prática de rituais sagrados, onde eram formalmente depositados os restos mortais dos defuntos. Segundo os arqueólogos, a construção dos túmulos em locais específicos e estratégicos, servia também para marcar o território e estabelecer fronteiras. De entre os vários monumentos megalíticos, os Dólmens são sem dúvida alguma aqueles que mais cativam a atenção do visitante. O esforço e o engenho despendido por parte das comunidades na construção de obras tão difíceis e complexas como os Dólmens, não só são reveladoras de um surpreendente e amplo entendimento, como também indiciam a existência de um forte espírito de coesão social entre os diferentes povos que em tempos idos habitaram as terras altas da Aboboreira.
Enquanto deambulamos pela imensidão do planalto serrano, ficamos com a sensação de regressar aos tempos de escola, assistindo in loco ao desenrolar da história de vida destas comunidades. Desde logo, a desoladora paisagem que se estende ao longo de quilómetros e quilómetros de solos esqueléticos, não será certamente a mesma que o inocente e assustado olhar dos primeiros Homo Sapiens observaram. Ela, por si só, conta-nos a história da lenta transformação das densas florestas primitivas de carvalhos numa paisagem aberta devido ao desenvolvimento da actividade agro-pastoril. E foi precisamente nesse estéril ventre granítico onde o Homem tentou, ao longo das eras, retirar o seu parco sustento, numa luta por vezes inglória pela sua própria sobrevivência.
Passados mais de 4 mil anos após o surgimento dos primeiros povoados, os montes aplanados da Aboboreira continuam a sentir o carinho e a veneração do Homem. Ao longo das espraiadas encostas da montanha, alguns pequenos aldeamentos vão salpicando em tons de verde o remendado manto de ossos e chagas que a severa paisagem expõe. Mas é precisamente lá em cima, onde a Aboboreira mais se aproxima do céu, que a ancestral ligação do Homem com a Montanha ganha maior amplitude e significado. Onde cada amontoado de pedras adquire uma estranha, mas ao mesmo tempo solene condição humana, e onde os defuntos sussurram-nos  aos ouvidos confidências e segredos que não podem, nem devem ser revelados.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


terça-feira, 14 de setembro de 2021

Nos Andes Peruanos

 

Vale Superior do Rio Conho, Serra do Gerês

Detalhes do registo fotográfico:
F/7.1
1/160 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Ainda antes da alvorada, estávamos já acordados e fora dos sacos-cama. Fomos de imediato ver se as roupas haviam secado, depois do dilúvio do dia anterior. E para nossa total surpresa e espanto, elas estavam completamente secas! Pena o forte odor a fumo que entretanto emanava em cada uma das peças de roupa... Paciência. Defumados... mas secos! Depois de prepararmos um delicioso pequeno-almoço: um café bem quentinho e devidamente acompanhado por umas torradas bem amanteigadas e acabadinhas de sair do fogareiro, saímos do abrigo e inspiramos o ar frio e limpo da manhã. Queremos aproveitar os primeiros instantes de luz do dia para fotografar, e cada um por si, caminhando de um canto para o outro, procura os melhores ângulos, o melhor enquadramento. Um dos nossos amigos afasta-se do grupo e decide acompanhar o curso de um pequeno ribeiro. <<Malta, venham cá!...>>. Assim que chegamos junto dele, ficamos completamente esmagados pelo cenário que tínhamos aos nossos pés: a montanha, subitamente, rasgava-se ao meio e duas escarpas caiam a pique, cavando um profundo abismo, onde um estreito corredor permitia a passagem das tumultuosas águas que, despenhando-se ao longo da encosta da montanha, embatiam furiosamente nos pedregulhos do desfiladeiro. A magnificência daquilo que os nossos olhos abarcavam impunha um longo e solene período de silêncio, quebrado apenas pelo som mecânico do obturador das máquinas fotográficas, que não paravam de disparar, de uma forma inclemente e compulsiva. Num tom algo brincalhão, houve quem não conseguisse conter todo aquele entusiasmo, e exclamou: <<Epá! Até parece que estamos nos Andes Peruanos! E se a malta fosse por aí abaixo à procura de uma qualquer cidade inca perdida? Hum? Quem sabe?...>> Sorrimos uns para os outros e regressamos ao abrigo para recolher as mochilas e arrepiar caminho.
Com o sol a esconder-se por detrás das nuvens, uma neblina fina e espessa lambia as encostas da montanha, cobrindo por breves momentos os vales e picos á sua volta. Embrenhados no meio da neblina, chegamos ao bucólico Prado dos Bicos Altos. A ideia era não apenas desfrutar do prado em si, como também encetar a ambicionada trepadela rumo às agulhas dos Bicos Altos (1094m). Tá bonito... bicos, agulhas, cumeada.... nem vê-los! Pretendíamos esperar um pouco mais, para ver se a neblina se dissipava, mas decidimos prosseguir a marcha. Tínhamos ainda um longo e árduo caminho pela frente: vencer um forte declive de cerca de 500m, para de seguida voltar a subir outro tanto até chegarmos à aldeia de Fafião, de onde havíamos partido no dia anterior. É que por terras fafiotas não há muito por onde escolher. Todo o montanheiro sabe que por estas bandas só há duas opcções: ou se sobe, ou se desce! Fatigados, pousamos finalmente as mochilas e fomos beber água da fonte. Enquanto reabastecíamos os cantis, alguém comentou que <<ao Domingo, num restaurante aqui perto, costumam servir churrasco de boi...>>. Seguiu-se uma breve troca de olhares. Talvez não fosse má ideia manter os fogareiros e os enlatados no interior das mochilas...


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


terça-feira, 7 de setembro de 2021

O farol da Rocalva


Prado da Rocalva, Serra do Gerês

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.6
1/1000 seg.
5 mm
ISO-64
Câmara Casio Computer CO. LTD.


As previsões meteorológicas para o fim-de-semana não eram de todo as mais animadoras. Estava prevista chuva, por vezes intensa. Tínhamos planeado uma jornada de travessia pelo maciço central da Serra do Gerês. Caminhar sobre chuva não costuma fazer parte dos nossos planos. Mesmo assim, arriscamos...
O caminho que havíamos inicialmente escolhido não era de todo o mais aconselhável. O trilho extendia-se a sensivelmente meia encosta da montanha, mas o carreiro mal-amanhado e bastante sinuoso, escondia alguns perigos. Em certos locais chegava a ser difícil ver o próprio caminho, com algumas passagens delicadas e onde uma eventual queda poderia provocar um acidente grave. Prestando sempre muita atenção ao longo do caminho, dirigimo-nos ao sempre aprazível Prado da Touça. Aproveitamos as comodidades do prado para almoçar, dispondo o nosso farnel sobre a rústica mesa de granito, tendo como companhia uns veneráveis carvalhos centenários. Ainda mal tínhamos terminado o repasto, e já era altura de colocar rapidamente as mochilas às costas, ou não tivéssemos nós acabado de levar com as primeiras bátegas de chuva do dia. E bem grossas por sinal! Apesar do constante agravar do estado do tempo, o ânimo dos meus companheiros permanecia inabalável. Estávamos a percorrer um dos mais belos trechos do percurso, esculpido ao longo do Vale do Rio da Touça. E se cá em baixo o nosso olhar detinha-se perante a beleza das inúmeras lagoas naturais esculpidas pelo jovem Rio da Touça, lá em cima, nos altos píncaros serranos, a inexpugnável parede de Porta Ruivas (1290m) impunha-se com toda a sua força bruta e esplendor.
Com o cansaço a fazer-se sentir e a roupa bem encharcadinha, terminamos a penosa subida da Encosta da Mourisca, e uma sensação de inquietude apoderou-se do grupo. Sentimos que íamos na direcção errada. Paramos. Retiramos a bússola e a carta militar.  Debatemos a situação. De facto, tínhamos efectuado um pequeno desvio. Decidimos recuar um pouco. A confirmação de que estávamos finalmente no trilho certo veio pouco tempo depois com o avistamento do farol da Rocalva (1347m). Com a sua formação rochosa muito peculiar, o domo granítico da Rocalva é simultâneamente uma das fragas mais conhecidas e acarinhadas das montanhas do Gerês. Com o ambiente finalmente desanuviado (refiro-me ao psicológico, já em relação ao meteorológico... minha Nossa Senhora...  que dilúvio!!!), as últimas centenas de metros mais pareciam um descontraído passeio pelo campo, onde ainda tivemos a leveza de espírito para sacar da máquina fotográfica e tirar algumas fotografias (a foto que acompanha o texto foi obtida precisamente nessa ocasião).
Mas o melhor ainda estava para vir. Assim que chegamos ao Prado da Rocalva e entramos para o abrigo... bingo!!! O abrigo encontrava-se não apenas limpo e seco, como ainda por cima tinha lenha empilhada! Palavras para quê? Toca acender a fogueira, retirar a roupa molhada, preparar o jantar e saborear um delicioso chá quente, e finalmente saltar para o interior de um saco-cama quentinho, adormecendo embalados pelo som do crepitar da lenha dentro do abrigo, e do barulho incessante do vento e das grossas bátegas de chuva, que caíam de forma inclemente sobre o frágil, mas precioso telhado de zinco do abrigo.


Fotografia © Filipe Mostardinha (Todos os direitos reservados)
Texto © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Uma conversa inesperada


Mosaico agrícola no Vale da Ribeira de Arnal, Serra do Alvão

Detalhes do registo fotográfico:
F/3.6
1/250 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


O Parque Natural do Alvão, situado na região oeste de Trás-os-Montes, é um pequeno enclave de cascatas e desfiladeiros. Nesta área protegida de reduzidas dimensões (com pouco mais de 7000 hectares), o visitante irá deparar-se com uma surpreendente diversidade paisagística. Considerada por muitos como a principal razão para a criação do parque, as quedas de água das Fisgas de Ermelo são o ex-líbris natural da região. Ao longo de sensivelmente 300 metros, as tumultuosas águas do Rio Ôlo precipitam-se sobre uma impressionante parede de rochas arqueadas e fracturadas, originando aquela que é considerada por muitos como a maior cascata em escada da Europa.
No entanto, há um outro Alvão a descobrir. Um Alvão mais humano, composto por homens e mulheres que juntos moldaram a severa paisagem e que diariamente retiram das entranhas da terra o seu sustento. É um prazer acompanhar as margens domesticadas da Ribeira de Arnal, bordeada por belíssimos carvalhos, ponteada aqui, e acolá, por velhos moinhos que já não moem os grãos de centeio e milho. Uma autêntica manta verde de retalhos prolonga-se ao longo do vale, e em cada pedaço de terra, um homem cava uma leira para semear batatas, uma mulher ceifa um molho de erva, enquanto manadas de vacas maronesas vão pastando, de forma livre e pachorrenta, ao longo do dia. No interior das povoações ainda é possível observar um punhado de casas rurais tradicionais, de dimensões modestas e escassas aberturas, alicerçadas com granito da região e revestidas por telhados de laje de ardósia.
Ouve-se um pequeno tilintar, lá para cima, para os ermos da serra. A curiosidade é tanta que viro as costas á aldeia e, de pé posto, subo a pedregosa encosta da montanha. Tlimmm... Tlimmm... Tlimmm... e ao fim de um bom bocado ainda não consigo descortinar com precisão o local de onde vem o misterioso som! Ando um pouco mais. Finalmente vislumbro um vulto negro encostado a uma rocha, imóvel. Quando dá pela minha presença, levanta-se, e, calmamente, dirige-se ao meu encontro. De capote sobre as costas, uma boina já gasta pelas traças e de cajado na mão, acena-me um bom dia, como a perguntar o que raio ando eu ali a fazer.  Acabamos por conversar um pouco. Recorda saudosos tempos em que foi jovem e emigrante. Desabafa algumas das amarguras da vida de um pastor e queixa-se da solidão, a sua companhia do dia-a-dia. Inesperadamente, a conversa é interrompida. Os cães começam a ladrar, o gado agita-se e ouvem-se tumultos. Num ápice, o pastor desata a correr que nem um doido em direcção ao gado, gritando: <<Oh diabo! Tu queres ver que anda aqui lobo!...>>.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


sexta-feira, 27 de agosto de 2021

O enternecedor abraço


Árvore morta envolta num manto de nevoeiro, Serra do Gerês

Detalhes do registo fotográfico:
F/5.6
1/200 seg.
9 mm
ISO-100
Câmara Sony DSC-P200


O chão encontrava-se revestido de musgo, e as árvores, uma mistura de espécies mediterrânicas e outras geralmente mais abundantes nos países do norte da Europa, levantavam-se de um colchão coberto por fetos gigantescos. Escondidos por entre a vegetação, cogumelos curiosos observavam os intrusos. A imensa diversidade da flora, especialmente no que diz respeito à botânica, torna o Vale Superior do Rio Gerês num autêntico paraíso para os Darwinistas em particular. Apesar de curto, o percurso que havíamos inicialmente escolhido revelou-se uma agradável surpresa. Decidimos alongá-lo um pouco mais. Assim que chegamos á Portela de Leonte, acabamos por ficar indecisos entre a opção de subir ao pico do Pé de Cabril (1236m), ou ao acolhedor Prado do Vidoal, localizado na vertente oposta da montanha. Apesar da relutância de alguns amigos nossos, a escolha recaiu na emocionante e sempre desafiante trepadela ao pico do Pé de Cabril.
À medida que íamos ganhando altitude, um misterioso manto de nevoeiro acolheu-nos com o seu longo e enternecedor abraço. Presença comum nas cotas mais elevadas da montanha, com especial intensidade nos dias mais cinzentos e chuvosos, o nevoeiro é muitas vezes o responsável por vários acidentes ocorridos na montanha. A dificuldade na obtenção de pontos de referência devido à reduzida visibilidade, pode tornar-se numa grande dor de cabeça! Contudo, o nevoeiro é também capaz de produzir imagens surpreendentes e misteriosas, repletas de fantasia e misticismo. A progressão, tal como seria de esperar, era feita de uma forma lenta e hesitante. E o nevoeiro, esse, continuava adensar-se cada vez mais, fazendo com que a visibilidade se tornasse praticamente nula. Para a maioria de nós, a situação em que nos encontrava-mos causava, mais do que qualquer outra coisa, desconforto e insegurança. Conversamos um pouco e decidimos recuar, regressando a Leonte, de onde retomamos o trilho inicial.
A falta de bom senso e a consequente tomada de más decisões, pode, inclusive, colocar a própria vida em risco. Em ambiente de montanha e com condições climáticas adversas é absolutamente fundamental manter a calma e o discernimento. Reconhecer as nossas próprias debilidades, mantendo-nos humildes e respeitosos num meio que, ao fim e ao cabo, não é o nosso, são factores determinantes que acabaram por conduzir-nos a um dia (muito) bem passado, usufruindo dos prazeres que só as montanhas podem proporcionar, em total segurança.


Fotografia © Mário Marinho (Todos os direitos reservados)
Texto © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


quinta-feira, 1 de julho de 2021

Os últimos bastiões


Bosque de ciprestes, Serra da Cabreira

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.8
1/15 seg.
6 mm
ISO-200
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Desde há muito tempo que a Serra da Cabreira tem permanecido fora dos principais circuitos turísticos de montanha. Um dos motivos apontados é a sua relativa proximidade com a vizinha Serra do Gerês.  Local de eleição, no norte de Portugal, para quem procura passar uns dias de férias em ambiente de montanha. Por ironia do destino, talvez seja essa proximidade uma das razões pela qual nos dias de hoje (ainda) é possível encontrar nas encostas e vales da Serra da Cabreira um frágil e harmonioso ecossistema de montanha. Um dos expoentes máximos desse valioso ecossistema é sem dúvida alguma a sua exuberante floresta. A baixa presença humana no território tem contribuído de forma decisiva para a rápida e constante regeneração dos espaços naturais da Cabreira, em particular dos seus bosques.
No entanto, ano após ano, verifica-se um crescente e sistemático recuo da extensa mancha verde que tanto caracteriza os montes da Cabreira. Desde o abate indiscriminado de árvores de grande porte, aos sucessivos incêndios de Verão, a Cabreira tem vindo a perder a essência da sua identidade. Despojada da elegância e luxúria dos seus bosques, a Cabreira inevitavelmente tornar-se-á, num curto espaço de tempo, em mais uma triste e enfadonha serra, igual a tantas outras.
Nesta minha caminhada outonal aos últimos bastiões da Cabreira, não pude deixar de sentir uma certa melancolia, originada pela saudosa recordação das primeiras deambulações por estes mesmos espaços, onde, na companhia dos amigos, desfrutei de aprazíveis e sãos momentos de convívio, absorvendo as energias puras que emanam destas florestas sagradas. Esses dias ficaram gravados na memória, assim como muitas das árvores que ali já não existem.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


terça-feira, 25 de maio de 2021

Um pequeno Evereste


Vertente norte da Serra do Marão, Portal da Freita (1347m).

Detalhes do registo fotográfico:
F/5.6
1/320 seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


A Serra do Marão não é, definitivamente, a mais bela e selvagem serra nacional. Não é agreste e bravia, como o Gerês. Nem tão pouco possui a luxúria e a elegância da Cabreira. Não tem uma coisa, nem outra. Mas há algo que distingue o Marão de todas as outras serras - a sua verticalidade. Aqui, a terra, contorcida e fragosa, levanta-se a pino! Subir uma montanha na alcantilada vertente norte é como alcançar o topo dum pequeno Evereste. A subida é árdua. O esforço imenso.
Tanto no pequeno Evereste maronês, como sobretudo no grande Evereste da vida, o fascínio não está (nem nunca esteve) no destino final. Está, isso sim, no longo e tormentoso caminho que paulatinamente vamos trilhando. E é precisamente no momento em que o caminho se torna mais difícil, quando a constante luta entre o corpo e a mente parece irremediavelmente perdida,  que tudo faz sentido. Perante a maior das adversidades, o ser humano revela o melhor de si: uma resiliência e capacidade de superação inabalável. Há quem afirme que «a vida começa onde termina a sua zona de conforto». Não podia estar mais de acordo! E nada melhor que a desafiante verticalidade de uma montanha maronesa, para que a cada gota de suor vertida, nos relembremos do que é verdadeiramente importante: acreditar em nós próprios.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)


terça-feira, 16 de março de 2021

O caminho de que nos desviamos


Bosque centenário (Vale do Rio Marão), Serra do Marão

Detalhes do registo fotográfico:
F/2.8
1/60seg.
6 mm
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Os trilhos de montanha não têm necessariamente que ser duros e desconfortáveis. Por vezes, alguns trechos do caminho surpreendem-nos com a sua incrível leveza e singularidade. Este antigo carreteiro de montanha trespassa um raro e valiosíssimo bosque centenário. Um pequeno ponto verde que escapou milagrosamente ao devastador incêndio florestal que reduziu a cinzas uma das mais pujantes e emblemáticas florestas do país. O inferno de chamas que se abateu sobre as montanhas da Serra do Marão, no longínquo e nefasto ano de 1985, consumiu mais de 3000 hectares de floresta, desalojando famílias inteiras e destruindo campos agrícolas e pastagens para o gado. A catástrofe, com contornos nunca antes vistos em Portugal, marcou um ponto de viragem no que diz respeito à ausência de políticas florestais concretas. E muito se falou desde então sobre um novo e urgente ordenamento do território, e da floresta em particular.
Várias décadas volvidas, as encostas maronesas vão lentamente recuperando do trágico incêndio, embora seja praticamente impossível voltar a vê-las revestidas da outrora densa e carismática floresta de pinho. Pelo contrário, os montes do Marão (tal como muitos outros por esse país fora) têm vindo a ser cada vez mais mal tratados e, de certo modo, desprezados. Trata-se da consequência de um fenómeno imperceptível para alguns, mas profundamente enraizado no decorrer da evolução das nossas sociedades - um cada vez maior distanciamento das pessoas em relação à natureza, à terra, aos rios, às rochas, e, claro, às árvores e à floresta.
O registo fotográfico que acompanha o texto, pretende, também ele, estabelecer uma certa analogia entre o passado e o presente. Este velho carreteiro de montanha, na realidade, aponta-nos um outro caminho: é através dele que podemos sentir e ver o caminho de que nos desviamos.


Texto e fotografia © Baltasar Rocha (Todos os direitos reservados)